Natal(RN), 18 de junho de 1960.

Meu amor,

Estou diante do espelho. Olho meu rosto cheio de rugas e sorrio de mim mesma. Faço anos hoje. Tenho agora oitenta e sete anos e você noventa e três anos de idade. Tantos anos se passaram e nenhuma notícia sua. O destino nunca quis que nos reencontrássemos. Mesmo morando numa cidade pequena. Quase não tenho notícias suas. A memória anda fraca. Tenho a doença de Parkinson. Não sou mais aquela mulher bela que você conheceu. Aquele corpo moreno e cheio de curvas está velhinho e nele há marcas do tempo.

Há quase trinta anos me disseram que você estava com mal de Alzheimer. Eu fiquei tão triste ao saber disso. Certamente me esqueceu de uma vez por todas. Sei disso porque as flores que vinham em todos os meus aniversários deixaram de vir faz muitos anos. É tão triste o fim da vida e ao mesmo tempo tão bom olhar para trás e saber que vivemos uma história bela.

Durante todos esses anos escrevi cartas para você na intenção de conservar vivo o nosso amor e diminuir a saudade. Cartas de amor para L, esse é o meu destinatário. Algumas cartas eu perdi, outras queimei pensando em destruir de uma vez por todas esse amor que me corrompeu a alma e o corpo todo esse tempo e ainda há outras que deixei o vento levar na esperança de que chegassem até as suas mãos.

A minha voz está fraca, meu amor. Ando de bengalas. Não saio mais de casa. O homem do leite vem todas as manhãs. O jornaleiro passa à tardinha. Porém, eu não leio as notícias. Elas não me importam mais. O que tenho de valor nessa vida árdua é você. No dia quatorze desse mês você completou noventa e três anos de idade. Tem tataranetos, bisnetos, netos e filhos. Sua esposa partiu jovem. Você teve muitas amantes. Entregou-se ao álcool. Ah! Meu querido, como eu te amo! Essas notícias que me chegam agora sobre você dói tanto na minha alma que eu nem sei direito o que dizer ou fazer. Tenho vontade de lhe procurar. Dizer que meu amor continua do mesmo jeito. Talvez maior. Talvez mais maduro. Talvez mais vivo do que eu mesma. A minha velha idade não me permite sair da cadeira de balanços para tão longe. Dou voltas no quarteirão da nossa casa e isso me satisfaz um bocado. Às vezes tenho alucinações e vejo você me abraçando, dizendo que nunca me esqueceu, querendo um beijo meu, um abraço meu, um olhar meu. Alucinações foram muitas nesses anos passados, meu amor.

Você esqueceu todo o seu passado. Com ele fui eu. Choro, meu amor. Choro de saudades. Durante todos esses anos eu vivi para você. Vivi na esperança de que você entraria pela porta da frente da casa com aquele seu sorriso lindo dizendo que me amava. Conservei a porta apenas encostada durante todos esses anos. Faz muito tempo, sim. Faz muito tempo que não vejo você além do que está plantado em mim. Eu guardei tudo que era nosso. Fiz embrulhos cuidadosos. Encaixotei o que pude. Só você ficou ao meu lado o tempo todo e nunca longe. Nunca longe. Longe, não. Ontem eu dormi com você. Acordei hoje com o seu beijo. Tomei meu desejum com você. Tenho saudades do seu corpo e da sua alma de criança. Ela está aqui perto de mim. Ela nunca saiu de perto de mim. No entanto, o que mais me dói é saber que você me esqueceu. Quem é Rosa? Pergunta você. E alguém diz que eu fui sua garota na juventude. A garota com quem você brincou de amar. A garota que amou você com a intensidade da luz do sol.

Uma vez me atrevi a pintar um quadro que parecesse com a nossa história. Pintei um menina de costas. Você colocou, feliz, o quadro na parede da nossa biblioteca. Lembro que ficou intrigado querendo saber quem era aquela menina. Faz tantos anos isso. Ele está aqui, ainda. Agora posso confessar-lhe: essa menina sou eu escondendo o meu medo de perder-lhe.

São cinco e trinta e três da manhã. O dia está nascendo. Os pássaros cantam nas árvores. O céu ainda está meio escuro. O sol vem nascendo devagar. Laura, nossa amiga, nunca me abandonou. Ela está abrindo a porta. Vou guardar a carta para que ela não sorria de mim. Seria engraçado eu com essa idade ainda escrevendo cartas de amor para você. Cartas que você certamente nunca as lerá. Quando Laura for embora eu volto para terminar de escrever.

Meu amor, Laura partiu ainda há pouco. São sete horas e quarenta e cinco minutos. Laura veio apenas me dizer que você morreu hoje de madrugada. Estou embaixo do pé de jabuticaba abraçada ao seu tronco. Chorando as minhas lágrimas. Eu não acredito nas palavras de Laura. Ela é falsa. Ela não gosta do meu amor por você. Ela quer me ver sofrer. Você não pode está morto se ainda há pouco estávamos na mesa tomando café e conversando. Meu amor, você está aqui? Fale comigo. Dê-me um sinal. Você é esse vento que passa agora? Essa folha que cai da árvore? Esse canto de pássaro? Meu amor, não me deixe sozinha nesse mundo. Eu não sou nada sem você. Estou lhe esperando para o chá da tarde. Vou pedir para Laura fazer os biscoitinhos de mel que você gosta. Não se atrase. Amo muito você.

Com carinho da sua Danda.