Por Danda Trajano

O verdadeiro conhecimento vem de dentro
Sócrates

Falar de poesia é bem difícil, todos nós sabemos, mas talvez seja mais difícil ainda falar do poeta, o artífice da poesia. Lendo o livro de E. M. de Melo e Castro intitulado “Pessoa: metade de nada”, parei, reli, reli novamente e grifei uma parte que chamou a minha atenção: os quatro graus da poesia lírica. Que graus seriam
esses?

O primeiro grau, segundo Melo e Castro, baseado em um escrito de Fernando Pessoa, datado de 1930, diz respeito ao poeta com pouco conhecimento e que exprime seus sentimentos baseado nas suas emoções; é uma poesia lírica, na maior parte das vezes, encontrada nos jovens poetas ou naqueles que detém a arte de apenas poetizar, sem uma busca maior do conhecimento do mundo das letras, da tradição e das linhas de continuidade que integram o imaginário da Literatura.

O segundo grau, trata de um poeta menos vulgar, que já apreendeu um certo conhecimento, tornou-se um intelectual, fazendo uso dos seus diversos conhecimentos na poesia que ora escreve. No entanto, sendo distintas as suas emoções, não são diferentes a maneira de as sentir, logo não atingiu ainda o grau verdadeiro do poeta. Aqui se trata de uma poesia lírica na qual o poeta já não tem mais a simplicidade das suas emoções, ele avança com o decorrer da sua arte poética.

O terceiro grau do poeta da poesia lírica é quando ele começa a despersonalizar-se, a sentir não por que sente, mas por que pensa que sente, como diz Melo e Castro. Seria um poeta intelectual, conhecedor do coletivo, da historicidade contínua, das coisas ao seu redor, feitor e partícipe de um mundo que traz para si em busca de aprimorar sua poesia lírica, colocando nela tudo o quanto a sociedade sente, quer, deseja, necessita, exige. É a fase em que o poeta encontra-se cheio de ideias, criativo, um pensar cheio de inteligência. O não-ser passa a ser
e o poeta cria seu estilo atribuindo um novo espírito a sua poesia. Mas ainda não está completamente pronto.

Atingir o quarto grau da poesia é o que busca o verdadeiro poeta mais intelectual, mais imaginativo, mais conhecedor da história de um povo e da sua história. A sua alma vive diversos estados emocionais a partir da sua despersonalização, do seu não-ser, do ser o outro enquanto sentimento que projeta em si para poder assim
construir sua poesia lírica. Estados da alma que procuram sentir o que não sente, faz do poeta uma pessoa fictícia.

Enfim, ficou aqui exposto o pensamento de Melo e Castro, mas continuo com as palavras do sábio Rilke, no seu livro “Cartas a um jovem poeta”: “…relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade.” Sim, apesar dos quatro graus citados acima creio que o poeta deve iniciar com a sua simplicidade para depois ir alcançando os demais graus, pois não se chega ao quarto grau sem antes ter passado pelos demais.

Para Melo e Castro não há dúvida de que Fernando Pessoa atingiu o quarto grau da poesia lírica, mormente nos seus múltiplos heterônimos. Como apreciadora da obra de Fernando Pessoa, diria até que sua despersonalização total é encontrada no seu mestre Alberto Caeiro, com a sua poesia rica em diversos assuntos, apesar de dizer que há poetas que são artistas, esses são os eus elevados a um grau de conhecimento em que se pode falar sobre diversos assuntos de forma fácil e simples. Mas é em Ricardo Reis que podemos ver essa sua total despersonalização, como no poema “Vivem em nós inúmeros”:

“…
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
…”

Assim sendo, Fernando Pessoa demonstra que sua poesia através do heterônimo de Ricardo Reis concebe outros mundos e sente outras sensações além das suas, ou seja, de outras almas. Sai o poeta lírico da primeira infância para o intelectual da tabacaria, tradutor e comerciante.

Em síntese, vale a pena tentar chegar ao quarto grau da poesia, para podermos estabelecer um contato mais próximo com o nosso eu intelectual e conhecedor de mundos para os eus- líricos que nos rodeiam no cotidiano. Sendo assim, compreendo que para criar a infopoesia, a videopoesia e a holopoesia ou até mesmo a poesia visual, precisa-se chegar ao quarto grau da poesia lírica, pois o intelecto terá algumas formas mais criativas e mais complexas de expressar o seu lirismo, como procede Melo e Castro.

Mestra em Literatura Comparada.