Por Danda Trajano *

Os deploráveis modos modernos de hoje serão os “bons velhos tempos” de amanhã.
L.S. McCandless

Sim, o nome do livro é “Algorritmos” e não “Algoritmos”. Uma coisa é poesia, a outra é tecnologia, mas, misturando as duas, o que fez o poeta português E. M. de Melo e Castro, surgiu o livro “Algorritmos”. Li e reli, gostei muito. Não sei se há bastante silêncio nele ou se barulho demais. As poesias visuais formadas por camadas de pixels chamaram minha atenção, principalmente as que contêm milhões de pixels. Sempre gostei de imagens e tive um relacionamento muito íntimo com elas na minha infância, quando conversava com meus desenhos. Hoje retorno a contemplar e estabelecer um diálogo com as imagens do maior poeta semiótico de Portugal.

Um algoritmo é uma sequência de passos bem definidos com um fim específico, mais ou menos isso, para simplificar, na matemática. Mas e na poesia? Na poesia de Melo e Castro o “Algorritmo” é uma sequência de passos não definidos, ou seja, começam por onde o leitor achar melhor e sem fim específico, porque na poesia não há fim, o fim é subjetivo, como sabemos. O código da poesia do livro “Algorritmo” gerará não um programa, mas uma emoção, um sentimento ou várias emoções e sentimentos, dependendo do leitor.

A estética é individual, o belo dependerá da nossa possível leitura com o eu do poeta que parece transcender as linhas de comando do software para criar uma profusão de mundos dentro de outro mundo. Certa vez, ouvi do meu professor de Inteligência Artificial a seguinte frase, “Chegará um dia em que as máquinas pensem, porém elas nunca terão fantasias”, de Theodor Heuss, presidente alemão. Desconfio dessa proposição há muitos anos e cada dia que passa mais cresce a minha desconfiança.

Não são imagens simplesmente que estão no livro “Algorritmo”. Diria que são palavras escritas de uma nova forma, cheias de efeitos do desenho técnico, próprias dos designers profissionais. Tendo sido Melo e Castro professor de designer, fica mais fácil fazer uso da tecnologia dos diversos softwares de computação gráfica para des(compor) um poema em retas, curvas, imagens tridimensionais, etc.

Em um primeiro momento, o leitor pode pensar que o título leva a algum tipo de algoritmo matemático puro e que a sua grafia foi marcada de forma errada, mas ao abrir e passar as páginas, percebemos o que o autor quis dizer com “Algorritmos”, quer dizer, adicionando um “r” no meio da palavra. Em suma: qualifica as ciências exatas dentro da melodia da poesia. Como diz no seu livro “O próprio poético”, a cibernética usa a ciência, a filosofia e a poesia. Sempre admirei a ciência e a vi como uma poesia cheia de ritmo, mas falar disso para os meus amigos parecia meio complicado. Agora percebo que há quem escute minha mensagem.

O livro “Algorritmo” não contém algoritmos que geram códigos executáveis, mas uma poesia que gera sentimentos executáveis de emoções no espírito do homem. Enquanto as máquinas necessitam dos softwares para funcionarem, os cientistas de suas hipóteses, o poeta precisa da palavra que nunca deixou de ser uma imagem. O poeta Melo e Castro rompeu a poesia tradicional feita de versos e estrofes para uma poesia do pixel em que quanto maior o número de pixels maior a sua quantidade de versos.

Com efeito, investiguei com mais precisão as poesias do livro “Algorritmo” e acabei descobrindo que o autor parece fazer uso de vários softwares de computação gráfica para compor às vezes uma única poesia. Não posso afirmar quais softwares ele utiliza, mas certamente é mais de um, além de uma máquina com um processador capaz de responder rapidamente às suas criações. Não adianta tentar fazer infopoesia em um computador com processador lento ou pouca memória, seria bem difícil.

O algoritmo de Melo e Castro é bem simples: inicie, execute, vá para onde quiser. Esta a leitura que fiz da sua poesia no livro “Algorritmo”. A poesia do livro “Algorritmo” parece matemática, química, física, menos poesia. Isso é o que chamo de introdução à poesia digital. Ainda vivemos a fase da poesia lírica, mas ela passa agora a falar através da dupla criatividade que eu diria ser: poesia tridimensional. Uma poesia que cria o efeito de largura, altura e profundidade.

Vivemos em um mundo cibernético e esse exige um poetizar através da tecnologia digital. É preciso além de criar a poesia mostrar ao leitor um poema em que os pixels irão produzir a imagem para que retorne ao papel misturado aos elementos digitais. Seria o mesmo que compararmos uma foto preta e branca tirada em máquinas fotográficas antigas com uma fotografia digital tirada nas mais modernas máquinas. É isso. Acho que assim fica mais fácil compreender.

Alguém pode dizer que Melo e Castro não inventou nada de novo. Talvez sim. Talvez não. Mas de que adianta um engenheiro sem imaginação? As casas serão sempre parecidas. E um poeta com imaginação? Senta-se no computador e cria à sua maneira, seu jeito, do jeito que a imaginação manda-lhe. Sim, gosto da seguinte citação: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”, de Albert Einstein, cientista alemão. No entanto, sem o conhecimento não podemos mais produzir uma boa poesia, ou seja, uma poesia de qualidade, porque os sentimentos e emoções também acompanharam as mudanças.

Melo e Castro abriu o caminho para que demais poetas possam inventar outras formas de poetizar, afinal a revolução digital não parou e todos os dias somos levados a aprender um novo comando, um novo software, um novo atalho. Reaprender faz parte do ser humano, a estética para ser bela e cumprir seu papel no mundo da arte precisa dessa vontade de romper com o tradicional.

Aventurar-se na infopoesia exige muita técnica, experiência com computação gráfica e criatividade. Parece fácil, olhando as imagens do livro, dizer que sei fazer isso, também. Mas não é. Porque a poesia digital exige o conhecimento das ciências enquanto que a poesia da antiguidade não exigia nada, apenas a inspiração. Hoje poetizar para um público “internauta” tornou-se um trabalho demandador de técnicas que acompanhem a já mencionada revolução digital.

A computação gráfica tem por objetivo apresentar imagens que representem o mundo real, dependendo da imaginação do usuário. Trabalhei muitos anos com computação gráfica e gostava, nas horas vagas, de brincar de criar círculos e colocar palavras dentro deles… para mim apenas uma brincadeira. Hoje meu ofício de poeta que aderiu a infopoesia. Gosto dos softwares Corel Draw, Autocad, Adobe Ilustrator, Photoshop, Paint, After Effects e tantos outros. Mas, para começar, acredito que qualquer um pode escolher o software com o qual mais se identifica, principalmente os de código aberto, ou seja, gratuitos.

É preciso conhecer as cores primárias e secundárias, também um pouco do que são as cores RGB e CMYK. Aprender para que servem os pixels em uma imagem e por aí vai. Melo e Castro sabe de tudo isso e muito mais pelo que podemos ver nas suas poesias do livro “Algorritmo”.

O livro “Algorritmo” desconstrói o óbvio. Rompe com o silêncio dos poetas da antiguidade. Se lembramos de Camões pelo seu gigante Adamastor e de Fernando Pessoa pelos seus heterônimos, lembraremos de Melo e Castro pela sua infopoesia e assim virão outros nesse labirinto digital em que entrar parece fácil, mas sua saída não a encontramos nunca, não porque ela seja difícil de ser encontrada, mas porque uma vez lá dentro o poeta quererá fazer parte dessa revolução digital na poesia que rompe o verso e desfragmenta a estrofe em circunferências, gráficos, renderização, projeção 3D, ray tracing, sombreamento, mapeamento de textura, tudo isso para fazer com que as palavras esvaziem-se para encher-nos de metáforas que representem elementos essenciais da condição humana.

* Mestra em Literatura Comparada