Por Danda Trajano *

Entendemos por habitus numa linguagem simples, e considerando que ainda estamos no início das nossas pesquisas, como também num estudo inicial de Bourdieu (foto), que tal palavra pode ser conceituada como sendo o conjunto de textos que representa a cultura de um povo, em uma certa época. Talvez seja um conceito supérfluo, imaturo, mas poderemos amadurecer a nossa ideia com o decorrer dos nossos estudos, tendo em vista que o conceito se faz presente também nas obras de Fernando Pessoa, como veremos nos parágrafos seguintes.

Antes de falarmos no habitus em Fernando Pessoa, gostaríamos de fazer uma citação sobre o que nos disse Bourdieu sobre o mesmo:
O que os reúne, além da afinidade dos habitus, é a recusa anticonformista do conservantismo oficial que os lança em todas as correntes um pouco novas, gosto pela observação exata, desconfiança em relação ao lirismo, crença nos poderes da ciência, pessimismo e sobretudo, talvez, recusa de qualquer hierarquia nos objetos ou nos estilos que se afirma no direito de dizer tudo e no direito de toda coisa ser dita.

O que compreendemos quando Bourdieu faz esta referência ao habitus é exatamente aquele consenso entre os intelectuais da época, os mesmos estilos literários, a mesma vida boêmia, os mesmos ideais que os alimentavam por volta dos anos 1850. Um habitus que mostra uma parcela de intelectuais com uma vida modesta e que se opõem ao terreno das lutas simbólicas como assim nos diz Bourdieu (1996, p. 110).

Já para Bloom, o habitus representa valores estéticos. Foi pensando assim que ele colocou na sua obra “O Cânone Ocidental” vinte e seis escritores representantes dos valores estéticos da cultura ocidental que marcaram uma época e que até hoje influenciam novos artistas, considerando-os frequentemente como pais poéticos. Talvez por isso Bloom dê tanta importância ao cânone e o institui como a seleção de grandes escritores, como podemos ver nas suas seguintes palavras:

Nada é tão essencial para o Cânone Ocidental quanto seus princípios de seletividade, que só são elitistas à medida que se fundem em critérios severamente artísticos.

Nesta citação Bloom faz referência aos grandes escritores do Ocidente, que embora tenham vivido em épocas diferentes convergem para os mesmos valores estéticos, ou seja, o cuidado com a escrita, a valorização da sua arte, e por se tratar de um conjunto de qualidades e valores semelhantes é que concordamos no conceito de habitus quando Bloom escreveu o Cânone Ocidental.

Com referência ao habitus em Pessoa, temos em cada heterônimo um valor estético diferente, é como se existissem vários conjuntos de habitus neste poeta. Em cada heterônimo ele revela um estilo literário, uma nova pessoa com ideias e ideais distintos. O “Livro do Desassossego” descreve um Pessoa no heterônimo de Bernardo Soares num estilo literário totalmente diferente dos seus outros eus, o livro é uma espécie de diário onde se discute política, filosofia, socialismo, etc. Escrito em prosa, parece que o poeta conversa consigo mesmo, ou expõe suas ideias sem se preocupar se algum dia o mesmo será lido. Só por volta de 1982 é que o “Livro do Desassossego” 5. O habitus segundo Bourdieu e Bloom

Entendemos por habitus numa linguagem simples, e considerando que ainda estamos no início das nossas pesquisas, como também num estudo inicial de Bourdieu que tal palavra pode ser conceituada como sendo o conjunto de textos que representa a cultura de um povo, em uma certa época. Talvez seja um conceito supérfluo, imaturo, mas poderemos amadurecer a nossa idéia com o decorrer da escrita da nossa dissertação, tendo em vista que o conceito se faz presente também nas obras de Fernando Pessoa como veremos nos parágrafos seguintes.

Antes de falarmos no habitus em Pessoa, gostaríamos de fazer uma citação sobre o que nos disse Bourdieu sobre o mesmo:

“O que os reúne, além da afinidade dos habitus, é a recusa anticonformista do conservantismo oficial que os lança em todas as correntes um pouco novas, gosto pela observação exata, desconfiança em relação ao lirismo, crença nos poderes da ciência, pessimismo e sobretudo, talvez, recusa de qualquer hierarquia nos objetos ou nos estilos que se afirma no direito de dizer tudo e no direito de toda coisa ser dita.”

O que entendemos quando Bourdieu faz esta referência ao habitus é exatamente aquele consenso entre os intelectuais da época, os mesmos estilos literários, a mesma vida boêmia, os mesmos ideais que os alimentavam por volta dos anos 1850. Um habitus que mostra uma parcela de intelectuais com uma vida modesta e que se opõem ao terreno das lutas simbólicas como assim nos diz Bourdieu (1996, p. 110).

Para Bloom o habitus representa valores estéticos. Foi pensando assim que ele colocou na sua obra Cânone Ocidental vinte e seis escritores que representam os valores estéticos da cultura ocidental que marcaram uma época e que até hoje influenciam novos artistas, considerando-os freqüentemente como pais poéticos. Talvez por isso Bloom dê tanta importância ao cânone e o institui como a seleção de grandes escritores, como podemos ver nas suas seguintes palavras:

“Nada é tão essencial para o Cânone Ocidental quanto seus princípios de seletividade, que só são elitistas à medida que se fundem em critérios severamente artísticos.”

Nesta citação Bloom faz referência aos grandes escritores do Ocidente, que embora tenham vivido em épocas diferentes convergem para os mesmos valores estéticos, ou seja, o cuidado com a escrita, a valorização da sua arte, e por se tratar de um conjunto de qualidades e valores semelhantes é que concordamos no conceito de habitus quando Bloom escreveu o Cânone Ocidental.

Com referência ao habitus em Pessoa temos em cada heterônimo um valor estético diferente, é como se existissem vários conjuntos de habitus neste poeta. Em cada heterônimo ele revela um estilo literário, uma nova pessoa com idéias e ideais distintos. O Livro do Desassossego descreve um Pessoa no heterônimo de Bernardo Soares num estilo literário totalmente diferente dos seus outros eus, o livro é uma espécie de diário onde se discute política, filosofia, socialismo, e etc. Escrito em prosa, parece que o poeta conversa consigo mesmo, ou expõe suas
idéias sem se preocupar se algum dia o mesmo será lido. Só por volta de 1982 é que o Livro do Desassossego veio à tona, ou seja, saiu do baú, dizem seus críticos que ainda restam alguns fragmentos seus guardados no mesmo. Só para termos uma idéia do habitus distinto de Pessoa e seus heterônimos citamos uma passagem do Livro do Desassossego:

“Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar…”

Este mesmo Pessoa que escreve no heterônimo de Bernardo Soares se distancia em muito do mestre Alberto Caeiro, carente de educação e com uma linguagem simples. É este conjunto de valores estéticos que Pessoa deu a sua obra que nos confunde em distinguir um ou mais habitus para o mesmo. Mas como já dissemos no ínicio do nosso capítulo, este é um estudo inicial que ainda tem muito a ser abordado, pesquisado e analisado.

Veio à tona, ou seja, saiu do baú, dizem seus críticos que ainda restam alguns fragmentos seus guardados no mesmo. Só para termos uma idéia do habitus distinto de Pessoa e seus heterônimos citamos uma passagem do “Livro do Desassossego”:

Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar […]

Este mesmo Pessoa que escreve no heterônimo de Bernardo Soares se distancia em muito do mestre Alberto Caeiro, carente de educação e com uma linguagem simples. É este conjunto de valores estéticos que Pessoa deu a sua obra que nos confunde em distinguir um ou mais habitus para o mesmo. Mas como já dissemos no ínicio do nosso capítulo, este é um estudo inicial que ainda tem muito a ser abordado, pesquisado e analisado.

* Mestra em Literatura Comparada