Danda Trajano

Para além do verde

CAPÍTULO I

 

Sexta-feira, trinta e um de dezembro, as pessoas preparavam-se para a passagem de ano. A pequena cidade de Céu Azul apesar dos poucos recursos políticos-econômicos-financeiros, alcançou destaque no mercado internacional com a produção da fruticultura tornando-se a maior e melhor nesse ramo em todo o país. Desenvolvia grandes projetos nessa área, chegou aos melhores números quantitativos e qualitativos na exportação de frutas tropicais, tais como: melão e caju.

A passagem de ano encanta todos os corações, e para comemorar aquela festa cheia de emoções nada melhor do que reunir a população na praça pública do centro da cidade, lugar onde ocorriam os maiores acontecimentos de Céu Azul. O prefeito, aproveitando-se da oportunidade, não deixou passar nada em branco. Cuidou dos preparativos da festa recomendando cuidado com tudo, queria uma festa cheia de brilho, fogos, alegria. Queria luz! Muita luz! Encomendou os mais belos fogos de artifícios, mandou decorar a praça com dezenas de lâmpadas, pintou tudo o que pôde de branco, encarregou a sua esposa para, pessoalmente, cuidar da preparação do gigantesco bolo que comemoraria a chegada do ano novo e deu uma boa quantia em dinheiro ao padre para decorar a igreja como melhor lhe conviesse. Quem não conhecia o prefeito poderia achá-lo um político exemplar, mas como todo bom político brasileiro tinha lá o seu jeitinho de cuidar das coisas e visão no futuro, e claro estava de olho nas próximas eleições. Preparou um discurso belíssimo e com a maior cautela, afinal queria impressionar toda a população e a imprensa local. Também não podia esquecer que aquele era um ano de eleições e muito trabalho teria pela frente. No discurso, lembrou-se de citar as obras executadas na sua gestão, os novos projetos, e a construção da barragem Rodrigo Lima, a obra mais importante da sua administração. A barragem trouxe muitos benefícios à cidade que sofria no período de poucas chuvas. O nome da barragem recebeu uma homenagem do maior cordelista daquela região morto vítima de um incêndio que iniciou com um lampião de querosene, na sua casinha de taipa. Rodrigo Lima deixou uma vasta literatura de cordel, e seus escritos estavam na boca do povo. A construção da barragem fez um rombo nos cofres da prefeitura. As intermináveis licitações assustavam os contadores. Porém, se a ideia do prefeito era conquistar a confiança da população ele conseguiu, porque todos elogiavam os seus feitos. E se era para deixar a imprensa quieta também conseguiu, pois a rádio local deixou de perguntar onde estava o dinheiro da prefeitura para dizer que o dinheiro da prefeitura estava sendo muito bem usado.

Mas ali, em Céu Azul, naquela cidade de clima tropical, das muitas flores, do cheiro dos cajus amarelinhos, dos melões deliciosos, daquela gente engraçada que à tardinha sentava-se na calçada da casa para conversar, do cheiro do café quentinho à boquinha da noite, do barulho da vassoura piaçava a varrer o terreiro ao primeiro cantar do galo, sim, naquela cidade maravilhosa morava uma jovem linda, de olhar ingênuo, sorriso meigo, jeitinho tímido e assustado, inteligente e culta por natureza, a menina dos olhos da cor do céu e da pele negra, tão magra e frágil que todos queriam colocá-la no colo, a menina cresceu e se tornou uma mulher, mas não mudou em nada o seu jeitinho de ser. Tinha nome de santa e talvez por isso era assim tão meiga, chamava-se Maria, Maria da Paz.

Maria da Paz estudava administração na URCA, a Universidade Regional de Céu Azul. Maria parecia alegre, apesar do seu olhar dizer o contrário, os mais próximos sabiam que ela escondia algo, algo que não queria contar nem a si mesma. Mas Maria não vivia de tristezas, gostava de festas, dançava, brincava, conversava sobre tudo. O início do curso trouxe-lhe um estágio na prefeitura, na função de secretária-geral do prefeito. Em qualquer lugar onde o prefeito tivesse que ir, Maria devia acompanhá-lo.

Aquela noite estava linda. O céu estrelado, a lua quase cheia e poucas nuvens. Seria uma passagem de ano muito bonita. Maria foi à janela do seu quarto e ficou lá, quietinha, lembrando-se dos seus pais. Sentia a falta deles. Saudades, sim, tristeza não deveria sentir. Pediu a bênção a eles, enquanto olhava para o céu. Lembrou-se, também, de agradecer a Deus pelo seu trabalho na prefeitura e por estar tão bem na universidade. Mas, seus olhos encheram-se de lágrimas ao se recordar do seu grande amor. Contando trinta e três anos não tinha esquecido, ainda, daquele que foi seu primeiro namorado e seu único amor. Um amor de criança que passa rápido, como todos dizem, mas o dela não passou. Era bobagem pensar em tudo aquilo, estando tão longe dele, e sem ter notícia alguma, além da distância que os separavam.

– Vamos, Maria! A praça está cheia. Daqui a pouco não vai ter lugar nem pra gente ficar em pé – chamou Rita, a sua amiga.

– Espere só mais um pouquinho. Estou terminando de me vestir – pediu Maria.

Passados alguns minutos Maria entrou na sala onde estavam sentados, bem abraçadinhos, Rita e o seu namorado.

– Maria! Como você está linda! – exclamou Rita olhando para a amiga.

– Rita tem razão, Maria. Você está magnífica! – disse o rapaz sorridente.

– Vocês dois são tão exagerados. Venham cá, os dois. Quero um abraço bem apertado.

O casal levantou-se da poltrona e abraçou Maria que estava emocionada. Não conseguiu esconder as lágrimas. Às vezes parecia uma muralha de tão forte que demonstrava ser, e outras tão frágil que até uma formiga podia causar-lhe medo.

– Vocês são a minha família. Obrigada, Chico. Obrigada, Rita. Vocês são maravilhosos!

Maria não precisava arrumar-se muito para mostrar a sua beleza. Colocou um vestido de tecido macio de cor branca, sem mangas, de alças finas, com florzinhas bordadas em todo o busto, e duas fitas nas costas formando um X. Calçou sandálias com um saltinho baixo decoradas com bolinhas de cor prata. Passou um pouco de batom cintilante nos lábios grossos, e um pouco de sombra nas pálpebras.

Tinha em Rita e no seu namorado seus únicos amigos verdadeiros. Não era de viver na casa das pessoas, nem gostava de fofocas. Levava uma vida tranquila, trabalhava o dia todo, a noite ia à universidade e nos fins de semana adorava nadar no açude. Chico às vezes levava-as para um passeio pelo sítio dos seus avós onde se deliciavam comendo castanhas assadas ou galinha caipira, cozinhada em panela de barro. O rapaz vivia de apresentações teatrais de mamulengos, bonecos que ele mesmo fabricava e dava vida. Geralmente as suas apresentações aconteciam nas feiras livres, nas escolas e nas praças. O boneco mais conhecido de Chico chamava-se João Redondo, era um preto danado de bravo que usava uma faca na cintura e procurava o macho com quem sua mulher o corneou.

Enquanto Chico se divertia e ganhava a vida com suas marionetes, Rita, a sua namorada, trabalhava como professora de um jardim de infância. Rita era tranquila, nem magra nem gorda, vestia sempre longos vestidos, sorria que era uma beleza, usava óculos, costumava prender o cabelo como um rabo de cavalo e calçava botas para enfrentar os cinco quilômetros da estrada de barro que a levava até à escola onde dava aulas. Seus alunos eram crianças amáveis e tinham um grande carinho por ela.

Quando chegaram à praça a festa já tinha começado. Faltavam poucos minutos para a meia-noite. Muitas pessoas se aglomeravam nos bancos e nos canteiros. A criançada corria de um lado para o outro. Primeiro assistiram a missa celebrada pelo padre da cidade que não poupou palavras no seu discurso e criticou a situação econômica do país, a violência, a fome, a educação. O padre pediu ao prefeito que olhasse mais pelos pobres, o que não agradou nada ao prefeito que esperava um agradecimento e não uma crítica. Depois da missa, faltava pouquinho para a meia-noite. Chico num terno emprestado não podia nem mexer os braços de tão apertado que estava.

– Agora que a missa acabou podemos nos sentar ali – Chico apontou para uma mesa desocupada.

– Ali nós vamos ficar longe das pessoas. Eu quero me sentar no meio do povo! – exclamou Rita.

– Se aquiete, mulher. A praça está cheia. Vamos logo nos sentar, senão até sem aquela iremos ficar – comentou Maria.

Muitas mesas foram espalhadas pela praça, mas foram poucas diante do público. Um bom equipamento de som animava a festa. O coral da igreja deu um espetáculo cantando a música Noite Feliz. Maria lembrou-se da sua mãe. Ela adorava aquele dia. Era muito católica. Todos os domingos iam à missa. Como de costume usava branco, sua cor preferida. O seu pai realizava os desejos dela. Bastava a mãe dizer que estava com dor numa unha que o pai corria para fazer um chá. Era um bom homem. Seus pais diziam que vestir-se de branco na noite de ano novo traz paz e sorte. Quantas saudades deles sentia Maria naquele momento.

Estavam sentados na mesinha quando a chuva de fogos começou. Era meia-noite. O céu tornou-se colorido, de repente. As pessoas se abraçavam, felizes. Chico abraçou a namorada e a amiga ao mesmo tempo. Brindaram o novo ano com votos de felicidade, amor, paz e saúde.

– Bom ano novo, minha amiga – falou Maria.

– Pra você, também! Felicidades! – desejou Rita.

– Maria! Maria! Feliz ano novo! – Chico a abraçou.

– Meu amigo, o mesmo te desejo. Muitas felicidades – Maria retribuiu o abraço.

O prefeito veio à mesa de Maria para abraçá-la com seus votos de feliz ano novo. Sempre muito falante, elogiou-a diante dos seus amigos.

– Veja, Maria. Toda essa festa foi obra sua. Você é uma grande secretária! – falou o prefeito, sorridente.

– Obrigada, prefeito. Mas temos que lembrar que muita gente trabalhou para tornar esta festa bonita.

– Mas você, Maria, é a grande responsável por isso. Você está de parabéns! Não é mesmo, meninos? – perguntou o prefeito olhando para Rita e Chico que concordaram rapidamente.

Depois que o prefeito se foi, os três ficaram conversando sobre os projetos para o novo ano. Chico queria entrar na faculdade de Administração e Rita queria concluir o curso de Pedagogia. Já Maria tinha os mesmos sonhos de antes: rever seu grande amor e fazer justiça com o nome dos seus pais. Desde que descobriu a armadilha em que seus pais e ela caíram não se conformou com aquilo. Silenciou-se durante muito tempo por pedido dos seus próprios pais. Mas era chegada a hora de se vingar dos Martins. A hora de mostrar a verdade.

– Maria! Maria, você está me ouvindo?

– Oi, Chico! Desculpe-me. Estava sonhando acordada.

– De novo? – perguntou Rita num sorriso largo.

– O que você estava dizendo, Chico? – perguntou Maria.

– Eu perguntei se você não está com vontade de ir para casa?

– Já? É cedo, ainda. Vocês já querem ir?

– Chico está meio sonolento, Maria. E eu acho que tomei umas doses a mais de champanhe.

– Por mim, tudo bem. Não estou com sono. Mas se vocês já querem ir, não tem problema.

– Esperem, meninas! – pediu Chico.

– O que foi? – perguntou Rita.

– Meus pais acabam de chegar. Preciso cumprimentá-los. Venha, vamos comigo, Rita. Eles vão gostar de nos ver.

O casal levantou-se da mesa e desapareceu na multidão. Maria ficou sozinha, sentada na mesa. Pensava em muitas coisas. Tinha tantos sonhos, tantos planos. Céu Azul não foi a cidade que a sua família escolheu para morar, eles foram parar ali por acaso. Uma longa história que marcou toda a sua vida. Mas que a própria Maria jurou a si mesma modificá-la.

– Maria!? Maria!? É você? – perguntou um homem que surgiu do nada, de repente.

– Paulo! Eu não acredito! Paulo o que você está fazendo aqui? – Maria ficou surpresa e espantada com aquele encontro.

– Ei, ei, calma! Primeiro, meu abraço de ano novo. Depois eu explico como vim parar aqui – disse o homem mostrando um sorriso encantador.

Maria levantou-se e o abraçou com bastante força. Ficou pequenina com a sua pouca estatura de um metro e cinquenta diante daquele homenzarrão de quase dois metros de altura, de braços longos, peito largo e coxas musculosas. Ficaram abraçados durante alguns minutos, como se o tempo tivesse parado. Foi um abraço gostoso, cheio de saudades, de emoção e ternura. Um abraço que trouxe medo para Maria ao tomar consciência da realidade.

– Paulo, o que veio fazer em Céu Azul? – perguntou afastando-se do homem.

– Negócios, Maria. Céu Azul já não é mais uma cidadezinha perdida no mapa do Brasil. E você sabe disso. Vim conhecer de perto o sabor das frutas tropicais. Principalmente o melão – comentou Paulo segurando a mão dela.

– Mas você não entende nada disso, Paulo! Eu era muito jovem, mas me lembro que os negócios da família Martins eram as fazendas com seus gados gordos.

– Esqueceu que sempre fui diferente de todos lá em casa, Maria? Eles vendem carne, eu vendo frutas. Quer dizer quero vendê-las – Paulo sorriu.

– É verdade que o cultivo do melão tem dado muito certo por aqui, mas não acredito nessa sua história. Está me vigiando, Paulo?

Maria ficou séria. Estava assustada e de repente lhe bateu um pânico. Paulo era um fantasma do passado. Ora, o que queria ele ali em Céu Azul senão ter notícias suas e da sua família. Uma raiva começou a tomar conta do sangue nas veias finas de Maria. O coração batia apressado.

– Não é nada disso, Maria. Vamos, sente-se. É ano novo. Vamos festejar. Esqueça toda essa raiva, menina.

– Não me chame de menina. Se você e a sua família acham que vão continuar mandando na minha família estão enganados, Paulo. Acabou. Agora só resta eu. A briga vai ser comigo de agora em diante – Maria sentou-se, nervosa. Tomou a taça de champanhe à boca e engoliu o líquido num único gole.

– Maria, eu vou repetir o que estou fazendo aqui. Eu vim fazer negócios. Vim comprar terras, plantar melão, caju… Nem todo filho de gato é gatinho, como dizem por aí. Eu não sou igual aos meus pais, Maria. E você sabe disso – Paulo olhou bem para os olhos dela.

– Será? Será que posso acreditar nisso? – Maria parou e olhou-o por algum tempo – Sabe de uma coisa? Eu não tenho nada a ver com o que você está fazendo nesta cidade. Me desculpe – lamentou-se Maria com o coração ainda batendo forte.

– Não precisa se desculpar. Durante todos esses anos muita coisa aconteceu. Eu mudei, Maria. Nós mudamos. Éramos crianças, lembra?

– Não o bastante para esquecer o que os seus pais e você, Paulo, aprontaram com a minha família. Mas seja lá o que você esteja fazendo aqui não irá mais conseguir magoá-los, nunca mais. Nem você, nem ninguém. Eles se foram – Maria deixou que as lágrimas molhassem seu rosto.

– O que está me dizendo? Está falando dos seus pais? – Paulo ficou preocupado.

– Sim, Paulo. Meus pais morreram há dois anos e meio. Primeiro foi o papai que não resistiu a um câncer nos pulmões. Três meses depois mamãe morreu, também vítima de um infarto. Eu fiquei sozinha. O pagamento que seus pais deram aos meus para me afastar do seu irmão acabou faz tempo. Maldito dinheiro!

Paulo ficou em silêncio. Ele não sabia do que Maria estava falando, mas ela não acreditaria se dissesse. Lembrava-se apenas de ter acordado certa manhã de domingo e ter recebido a notícia de que os pais de Maria tinham partido para um lugar distante sem comunicar o motivo. Pediram demissão alegando que estavam cansados e queriam cuidar da filha num lugar tranquilo. Claro que ninguém acreditou naquela história, mas as ordens do senhor Martins, o seu pai, foram duras – Não se fala mais dessa gente aqui – Lembrava-se bem dessa frase. Como também não tinha esquecido da reação do seu irmão mais novo ao saber a notícia que Maria tinha partido.

Maria foi se acalmando aos poucos. Paulo procurou ser paciente para com ela. Aos poucos percebeu o quanto Maria estava magoada e o quanto tinha rancor dos seus pais. Ele pegou mais duas taças de champanhe e ofereceu uma para ela. Maria já tinha bebido bastante. Teve uma hora que olhou para os olhos castanhos claros de Paulo, seus cabelos grisalhos, sua barba bem feita, seus lábios finos, seu nariz grande, era bem parecido com Pedro. Por um instante lembrou–se daquele que teria sido seu único amor. Aquele que pensou ser um amor de criança, que todos ousaram pensar, mas que na verdade nunca deixou de ser um grande amor.

– Como vai a sua família? – perguntou com a voz trêmula.

– Você quer perguntar como vai Pedro? – Paulo tinha um sorriso irônico nos lábios.

– Sim, ele também. Eu quero saber como está a família. Sinto saudades de muitas coisas, Paulo. Eu vivi toda a minha infância na sua casa.

– Eles estão bem. Se quiser saber sobre Pedro, ele casou-se. Tem uma filha de cinco anos. E continua o mesmo homem responsável e certinho. Os meus pais estão cada vez mais ricos. Abriram recentemente uma indústria de laticínios.

– Pedro casou? – perguntou Maria, surpresa.

– Sim. E a minha sobrinha é a coisa mais linda dessa vida – comentou Paulo observando-a.

Maria sentiu o mundo girar sem parar. Estava tonta. Pensou que Pedro cumpriria a promessa que fizeram um dia de que se não viessem a se casar jamais casariam com outra pessoa. E até aquele dia tinha esperado por um homem que nem se lembrava mais dela. Paulo destruiu seu sonho. Pedro jamais seria dela. Estava casado e tinha uma filhinha. Foi tão ingênua acreditando que o filho de um rico fazendeiro viria atrás da filha de um casal de empregados naquele fim de mundo. Esperou por Pedro durante toda a sua vida. Como os sonhos acabam tão rapidamente! Sentiu um vazio no peito, era como se alguém tivesse arrancado um pedaço do seu coração.

– Você está bem, Maria? – perguntou Chico se aproximando com Rita.

– Sim, sim, estou. Paulo, estes são meus amigos: Chico e Rita. Sentem–se – Maria engoliu o choro e fingiu um sorriso.

Rita percebeu a tristeza no olhar da amiga, mas não fez nenhum comentário. Sem saber direito quem era Paulo ficou feliz ao ver Maria conversando meio sem jeito com aquele homem tão bonito. Talvez estivesse emocionada pela presença dele. Chico logo fez amizade com Paulo e começou a falar da cultura da cidade para ele.

– Quanto tempo vai ficar por aqui? – perguntou Rita ao saber que Paulo era um visitante.

– Se tudo der certo, um bom tempo. Pretendo fechar uns negócios o mais breve possível. Não conhecia o Nordeste, e devo dizer que estou surpreso com o que vi. Não é assim que a mídia descreve o Nordeste, não com estas palavras belas do Chico. Pensei que fosse encontrar somente terra seca pelo caminho e me vejo rodeado de fruticultores orgulhosos com os bons resultados das colheitas – disse Paulo, empolgado.

– Os grandes problemas do Nordeste na maior parte são consequências de uma má administração, da escassez de bons políticos que pudessem lutar pela melhoria da região. Aqui tem água em abundância, esse negócio de seca é conversa fiada. No dia que a transposição do São Félix sair do papel o Nordeste vai ganhar outra cara. Os grandes projetos nunca são concluídos, o dinheiro desaparece. E você vê esqueletos de edifícios, pontes, barragens, etc. – Chico conhecia muito bem o Nordeste, afinal vivia viajando para fazer suas apresentações com o teatro de bonecos.

– Tenho um grande projeto para Céu Azul. Se o poder executivo e legislativo ficarem do meu lado muitas famílias desta cidade serão beneficiadas – falou Paulo, contente.

– Tomara que seu projeto dê certo mesmo. Tem muito pai de família sobrevivendo do trabalho informal. Tem muitas mães lavando roupas e fazendo faxinas para ganhar o dinheiro do pão e muitos pais tentando sobreviver da venda das panelas de barros que as suas mulheres fazem em casa.

Rita sabia muito bem como viviam aquelas pessoas, pois na escola onde dava aulas ouvia as queixas e lamentações dos pais dos alunos que às vezes não tinham nem o que comer, e a única refeição dos filhos era feita na escola. Na maioria das vezes a escola se tornava mais um lugar onde as crianças podiam saciar a fome do que estudar.

O sol já estava quase aparecendo quando voltaram para casa. Paulo, gentilmente, ofereceu–se para acompanhá–los já que a cidade era pequena e que a casa de Maria não ficava longe do seu hotel. Chico e Rita adoraram a ideia. Maria não gostou muito. Não sabia até onde deveria acreditar em Paulo e talvez fosse perigoso deixar que ele ficasse sabendo da sua vida.

Em frente a sua casa Maria despediu–se de Paulo. Estava cansada e com sono. Ele também parecia cansado.

– Obrigada por ter me acompanhado. Você foi muito gentil – Maria deu–lhe um abraço e o beijou no lado direito do rosto.

– Posso visitá–la outra hora? – perguntou Paulo.

Maria relutou um instante para dar a resposta, mas achou que estando ele na cidade não teria como esconder tanta coisa, já que em Céu Azul todos se conheciam e sabiam tudo um do outro. As fofoqueiras de plantão não demorariam a falar dela caso ele perguntasse.

– Claro que pode, Paulo. Venha quando puder. Será muito bom recebê–lo.

– Fico contente por isso. Você não sabe o quanto fiquei feliz ao revê–la – Paulo acariciou os cabelos de Maria.

– Preciso entrar. Estou caindo de sono. Tenha um bom dia – Maria despediu–se.

– Posso te pegar para tomarmos um sorvete mais tarde? – Paulo sabia que estava sendo apressado – Estou me sentindo muito só, Maria. Não tenho com quem conversar.

Maria sorriu das lamentações de Paulo. Parecia um adolescente reclamando da solidão.

– Tomaremos o sorvete, sim. Passe às três horas. Estarei lhe esperando.

Paulo se foi enquanto Maria fechava o portão. Ao entrar em casa Rita estava pulando de curiosidade e com um sorriso do tamanho do mundo nos lábios.

– Quem é esse homem? Meu Deus, que homem bonito! – Rita sentou–se na poltrona, cruzou os braços e ficou balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Você não vai acreditar quando lhe disser – Maria retirou as sandálias.

– Por quê? Você já o conhecia antes?

– Aquele homem é Paulo. O irmão de Pedro – Maria deitou o corpo sobre a outra poltrona.

– Irmão de Pedro? Aquele bonitão que você vive falando dele? O menino do Paraná?

– Este mesmo, Rita. Mas não se anime. As notícias que tive de Pedro não são nada agradáveis. Ele casou e já tem uma filha de cinco anos de idade.

– E você me diz tudo isso assim? Parece tudo tão normal para você.

– Não, Rita. Acontece que de tanto sofrer a gente acaba se acostumando com a dor. E tem uma hora que ela se aloja no peito, mas já não dói tanto. É como assistir ao mesmo filme duas, três ou quatro vezes.

Maria sabia que não estava falando a verdade. A dor no seu peito era muito grande, tamanha que não sabia como exprimi–la. Não podia imaginar Pedro ao lado de uma outra mulher. Aquele menino carinhoso, romântico, inteligente, que jurou um dia amá–la para sempre.

– Quer dizer que ele casou. Puxa! Você vivia esperando por esse homem, Maria. Eu te avisei tanto, minha amiga – Rita olhava carinhosamente para Maria.

Maria abaixou a cabeça e começou a chorar. Como Pedro casaria com uma caipirinha se tinha ao seu lado as mulheres mais elegantes e bonitas que pudesse imaginar? Sempre preocupado com os estudos e com os negócios da família, talvez nunca tivesse pensado nela. Tudo culpa dos pais dele que tiveram medo do filho querido se casar com a menina pobre. Os pais de Maria perderam o emprego por causa dela. Os Martins, pais de Pedro, fizeram uma proposta irrecusável aos pais de Maria. Eles voltariam para o Nordeste, com uma quantia boa em dinheiro que daria para comprarem um sítio e algumas vaquinhas em troca afastariam Maria de Pedro. Naquela época Maria completara quinze e Pedro dezoito anos. Desde crianças tinham uma afeição grande um pelo outro. Aos dezoito anos Pedro só falava em casar–se com Maria. As duas famílias achavam aquilo um absurdo. Com o diagnóstico de um câncer nos pulmões seus pais aceitaram a proposta. Pegaram o dinheiro e voltaram para o Nordeste. Seu pai tratou–se como pôde do câncer, mas nunca se curou. Comprou um sítio, duas vaquinhas e plantou alguns pés de caju. Maria não podia falar em Pedro. Todas às vezes que ousava perguntar por ele seu pai lhe batia com forças. A sua mãe não era feliz, e a culpava pela sua tristeza. Dizia que se Maria não tivesse inventado aquele namoro com Pedro até hoje teriam casa e comida farta na casa dos Martins. Seus pais culpavam–na pela vida que levavam. Viveu durante anos com o seu amor guardado no peito, sem falar para ninguém. Até conhecer Rita, tornarem–se amigas, e confiar nela para poder abrir seu coração. Quando seus pais morreram sentiu uma tristeza invadir–lhe a alma, achava que era a culpada por tudo de ruim que tinha acontecido aos seus pais, pela vida dura que tinham.

– Minha mãe sempre dizia que a esperança é a última que morre. Mas acho que a minha morreu, Rita. Não tenho mais pelo que lutar. Já não sei se continuo ou se paro. Eu queria ficar aqui, deitada nesta poltrona para sempre. Deixar que as coisas aconteçam, e não construí–las – estava profundamente triste.

Maria foi educada para amar um homem, ter filhos e cuidar do lar. Apesar do destino ter mudado a sua vida com a morte dos seus pais, guardava muitos dos seus ensinamentos. Sua mãe vivia dizendo que uma mulher quando ama entrega toda a sua alma, seu carinho, dar–se por completo ao marido. Deve saber passar, lavar, cozinhar e ser uma grande amante na cama. Maria não tomou a lição por completo, mas lembrava–se bem do cuidado que a sua mãe tinha para com o seu pai. O jantar tinha que está pronto quando ele chegasse em casa, a roupa passada e em cima da cama pronta para ser vestida, a toalha no banheiro. A sua mãe parecia mais uma empregada do seu pai do que uma esposa. O seu pai, ao contrário, era um bom homem, mas muito grosso no modo de pensar. As saias dos vestidos de Maria e da sua mãe tinham que passar dos joelhos. A primeira menstruação de Maria foi uma confusão. A mãe mandou–lhe colocar um pedaço de pano dentro das calças, e ficar deitada até o sangue parar. Não podia pegar sol nem comer abacaxi senão o sangue subia para cabeça. E Maria ficava lá deitada por três, quatro ou cinco dias. Riu ao lembrar de um rapaz metido a besta que estava louco para namorar com ela e seu pai botou para correr atirando com uma espingarda para cima. Apesar de tudo gostava muito dos seus pais.

A vidinha na cidade de Céu Azul era calma. Tinha bancos, supermercados, restaurantes, mas tudo muito simples. A beleza do verde das árvores e do ar puro dava um charme especial à cidade. Adormeceu ali mesma, na poltrona, recordando o seu passado.

Maria esperou que Paulo fosse buscá–la conforme tinham combinado, mas ele não apareceu. Não achou ruim. Estava cansada e meio tristonha. Queria mesmo era ficar em casa curtindo seu quarto, os seus livros, os seus quadros. O problema era como parar de pensar em Pedro. Ele preenchia seus pensamentos. O reencontro com Paulo despertou nela lembranças as mais diversas. Afinal ambos eram muito parecidos fisicamente. Não conseguia afastar a lembrança dos encontros escondidos, na beira do rio. Há algum tempo estavam tão juntos que nada seria capaz de separá–los, assim juraram. Maria julgou ser Pedro um mentiroso, aproveitador. Mas ela não sabia os motivos que o levaram a casar–se e tentar esquecê–la. Lá, longe dali, vivia um homem de trinta e seis anos de idade com os cabelos lisos já bem grisalhos, os olhos tristonhos, e a lembrança de uma menina a prometer–lhe amor para sempre. Quando os pais de Maria partiram para o Nordeste não teve como se despedir de Pedro, pois ele estava na escola. Quando chegou em casa, morrendo de saudades, soube que os pais dela tinham ido embora e que já planejavam aquilo fazia meses e Maria sabia de tudo. Pedro soube, ainda, que Maria prometeu nunca mais procurá–lo após seus pais receberem o dinheiro. Pedro sabia da doença do pai de Maria, mas nunca aceitou que ela tivesse escondido tudo dele. Que eles aceitassem a proposta ridícula dos seus pais, tudo bem, mas Maria concordar com aquilo era demais para ele. Na verdade, Maria só soube que iriam partir duas horas antes de pegar o trem. Deixou um bilhete com Paulo e suplicou que entregasse a Pedro, mas o bilhete nunca foi entregue. Paulo morria de inveja do irmão e era louco por ela. Pedro ficou sem notícias de Maria. Achou que ela tinha o traído. Conheceu uma mulher parecida com ela e casou–se. Nas noites de inverno costumava sentar–se na sua poltrona do escritório e ficar olhando a chuva ao lembrar do rosto daquela morena de olhos azuis tão linda.

– Maria, olhe o que chegou para você! – Rita entrou no quarto de Maria com um buquê de flores nas mãos.

– Flores! Quem mandaria flores para mim? – Perguntou Maria pegando um cartão dentro do buquê.

– Só há uma maneira de sabermos quem as mandou. Abra o cartão. É difícil adivinhar quem foi – Rita deu um sorriso.

– Vou ler pra você: desculpe–me por deixá–la esperando. Com carinho, Paulo.

– Flores vermelhas significam amor. Será que ele está apaixonado por você? Eu me casaria com ele. Pelo menos poderia ficar perto do irmão – disse Rita.

Maria sabia que Rita não estava falando sério, mas não seria má ideia casar–se com Paulo. Afinal, ele sempre demonstrou ser apaixonado por ela, sem contar que só o fato de estar perto de Pedro já seria uma felicidade muito grande para ela. Mas quem garantiria que casando com Paulo ficaria perto de Pedro? – Que bobagem! Ninguém é capaz de casar–se com outro só para poder estar perto da pessoa amada. Ou seria? – pensou.

– Maria! Maria, estou falando com você. Estava sonhando acordada ou encantada com as flores?

– Vixe! Eu nem percebi. Estava pensando em algo. Venha, vamos procurar um vaso para colocá–las – Maria abraçou o buquê com carinho.

À noite Rita fez tapioca na manteiga e tomaram café com leite, depois Maria comeu uma fatia de bolo preto. Após o jantar, Rita foi dar um passeio com Chico pela cidade e Maria preferiu ficar em casa. Precisava estudar. Estava sentada no tamborete da mesinha de madeira, vestia uma camiseta sem mangas e uma calça jeans azul. Espalhou livros por todos os cantos da sala, era sempre assim quando sentava–se para estudar. Já passavam das nove da noite quando a campainha tocou.

– Paulo! Entre. Estou sozinha. Chico e Rita foram dar um passeio – Maria ficou toda sem jeito com a visita.

– Boa noite! Encontrei seus amigos no barzinho do seu Germano e eles me disseram que você estava em casa. Passei para saber como foi seu dia – Paulo deu–lhe um abraço e um beijo na face.

Maria sentiu a fragrância deliciosa de perfume masculino. Enquanto Paulo tentava encontrar um lugar nas poltronas cheias de livros para sentar–se ela o observava atentamente. Era muito parecido com o irmão. Pelo menos no que restava nas suas lembranças. Paulo vestia calça jeans, camisa de mangas longas de cor azul e sapatos de couro preto. Seus cabelos curtos pareciam não embaraçar nunca.

– Sente–se aqui. Eu estava terminando um trabalho da faculdade. Gosto de ficar em casa, lendo, estudando. Não há muito o que fazer nesta cidade. Acho que você já percebeu isso – Maria sorriu.

– Ei, deixe–me ajudá–la com esses livros – Paulo aproximou–se de Maria e retirou os livros dos braços dela colocando–os em cima da mesa.

– Não quero atrapalhar seus estudos, mas hoje é feriado! Por que não saímos para dar uma volta? A lua está linda! Sei que você gosta de lua cheia – Paulo encostou–se na porta cruzando os braços.

– Acho que você tem razão. Você espera eu colocar uma roupa e ajeitar meus cabelos?

– Claro que espero, Maria! – Paulo sentou–se na poltrona de frente para a janela da rua.

Maria estava nervosa. A presença de Paulo fazia–lhe sentir–se mais próxima de Pedro. Tinha medo daquele sentimento. Colocou um casaco por cima da camiseta, escovou os cabelos cacheados e calçou uma sandália de couro marrom sem salto. Não precisava de muito para ficar linda. Sentia sono, mas não quis ser desagradável para com Paulo. Também seria uma forma de agradecer–lhe as flores.

Foram para uma sorveteria próxima do hotel onde Paulo estava hospedado. Havia alguns casais no local. Sentaram–se numa mesinha próxima da varanda que tinha uma vista bonita para a lua. Um jovem rapaz aproximou–se deles.

– Boa noite! Desejam alguma coisa?

–  O que você quer, Maria?

– Duas bolas de sorvete de cajá e goiaba.

– Eu quero duas bolas de sorvete de graviola – pediu Paulo.

O rapaz anotou o pedido e se foi, deixando–os. Os dois conversavam e sorriam bastante. Maria nunca tinha saído sozinha com um homem senão com o prefeito, mas a trabalho. Gostava da companhia de Paulo, ele sabia ser um homem agradável.

– Creio que vamos ser vizinhos – Paulo sorriu – A cooperativa dos fruticultores fechou um bom negócio comigo. A colheita deste ano é toda minha.

– E o que você vai fazer com tantas frutas? – Maria estava curiosa.

– Quero exportar frutas, Maria. O mercado internacional precisa de frutas tropicais. O melão é um dos melhores nesse comércio. Tenho um projeto de uma indústria para exportações de melões. Comprei uma área boa para a plantação e desejo começar o mais rápido possível.

– Eu não consigo entender por que você quer trabalhar com isso se tem os negócios dos seus pais.

– Sou um engenheiro agrônomo, Maria. E tenho interesse pelo meu próprio negócio. Além do mais, meus pais têm Pedro que hoje administra quase tudo sem precisar do meu auxílio. Se você quer saber mais estou aborrecido, pois sem me consultar eles contrataram um agrônomo. Me acham um irresponsável, talvez incapaz para o trabalho, e quem sabe eu tenha sido mesmo. Mas hoje não sou mais, e quero mostrar isso a todos – Paulo lamentava–se com um ar tristonho.

– Por que não mostrou ainda? – Maria estava interessada no assunto.

– Tentei mais de uma vez. Papai me disse que eu só entendia de cassinos e Pedro me ignorou durante todo esse tempo. Gastei muito dinheiro nas mesas de jogos, mas eles nunca procuraram saber por que eu fazia aquilo. Era uma fuga para mim o jogar. Uma fuga contra meu próprio medo.

– Medo? Medo de que, Paulo? Você me parece um homem tão sensato e inteligente.

– Medo de descobrir que realmente não sabia de nada mesmo. Que era um incompetente. Mas isso tudo mudou. Hoje sei que posso cuidar de mim, das minhas coisas sem necessitar da ajuda de ninguém.

– Você não está querendo provar para os seus pais que é melhor do que seu irmão ou está? – Maria sentiu um pouco de inveja nas palavras de Paulo.

– Não é nada disso. Eu não posso ser melhor do que Pedro. Se fosse teria lhe conquistado primeiro. Eu não esqueci você, Maria – Paulo apertou a mão dela com força.

Maria ficou nervosa com aquelas palavras. Lembrou–se de quando Paulo descobriu que ela e Pedro estavam de namoro e da sua insistência em ficar com ela. Paulo vivia perturbando–lhe às escondidas, até o dia em que sentiu a necessidade de contar sobre a sua relação com Pedro. Ele ficou furioso. Desde aquele dia a relação de amizade e carinho que existia entre eles ficou diferente e não se falaram mais senão na presença de outras pessoas. Até que o seu namoro com Pedro foi descoberto deixando os pais dele aborrecidos e insatisfeitos. Os pais de Maria também não gostaram de saber do que estava acontecendo, chegando seu pai quase a bater–lhe. Era criada como uma filha e não podiam permitir o namoro dos dois. Mas na verdade os pais de Pedro eram preconceituosos e Maria trazia dois traços perfeitos para despertar este sentimento: era negra e pobre. O fato é que quando o namoro foi descoberto, os dois estavam brigados. Paulo andou perguntando por Maria a Pedro e fazendo algumas insinuações. Pedro perguntou a Maria o que estava acontecendo entre ela e o seu irmão. Maria respondeu que nada além de amizade e respeito. Mas Pedro não se contentou com as palavras de Maria e tornou a insistir no assunto. Era um jovem muito ciumento. Pedro sabia o quanto seu irmão era bom com as mulheres. Paulo continuou insinuando que Maria estava se jogando para ele. Foi então que Pedro exigiu uma explicação a Maria sobre tudo aquilo, chegando no auge da discussão a acusá–la de mentirosa. Quando os pais de Pedro descobriram o namoro entre ele e Maria, decidiram imediatamente mandá–lo estudar na França. Maria procurou Paulo e implorou que contasse a verdade para Pedro, mas era tarde ele já estava com as malas prontas para viajar. Partiu sentindo–se traído, deixando Maria com o coração nas mãos de tristeza.

– Desejo sucesso para você. Não o conheço profissionalmente, mas acredito em você. Fico feliz pela sua escolha.

Paulo agradeceu com um sorriso. Sabia que a sua dedicação e força de vontade podiam ajudá–lo a vencer o vício dos jogos. Estava cansado daquelas noites de apostas, bebidas e mulheres. Era uma vida sem responsabilidades, sem objetivos, sem compromissos consigo mesmo. Queria mais para si, queria sentir–se amado e amar também.

Terminaram de tomar o sorvete e foram para casa. O sono que tinham perdido na noite passada pesava nos olhos e no dia seguinte ambos tinham muito trabalho a fazer. Caminharam a pé até a residência de Maria pelas ruas largas e arborizadas, olhando as casas de modelo barroco que embelezavam a cidade. A poucos metros da casa de Maria, Paulo parou e fez–lhe uma pergunta:

– Você ainda ama muito meu irmão? – perguntou olhando bem nos olhos de Maria.

Aquele não era um bom momento para começar a falar de Pedro. Se começasse a falar nele terminaria chorando. Era melhor fugir do assunto.

– Está tarde, Paulo. Tenho que dormir. Além do mais prefiro falar sobre você, seus projetos para Céu Azul. O que passou não tem mais sentido ficar lembrando.

Ele não insistiu. Percebeu o olhar triste e o esforço que ela sempre fazia para demonstrar indiferença quando falava em Pedro. Maria precisava de um tempo. O que importava era que estava ali, com ela. E se Pedro foi tolo o bastante para perdê–la era porque não a amava de verdade. Maria seria a sua vingança contra o irmão. Iria mostrá–lo que não era tão bom assim, tentando conquistar a mulher que tanto Pedro amou. A Rapunzel seria a sua esposa e se tornaria uma dama da sociedade. Seu irmão se ainda a amasse perderia a cabeça e consequentemente iria esquecer os negócios. Seu plano estava dando certo, precisava ser prudente, só isso.

– Gosto quando mente, Maria. Mas devia fechar os olhos quando estivesse mentindo.

Maria sabia que não podia enganar Paulo, aliás, não podia enganar ninguém quando se tratava de Pedro. Era só falar nele para sentir–se frágil e sem graça.

Estavam parados em frente à prefeitura. Era um prédio muito bonito. De cor azul. Com mais de cem anos de construção, mas o cuidado do prefeito mantinha–o conservado. Foi construído pelos portugueses quando de passagem pela cidade. Além do prédio da prefeitura, esses mesmos homens construíram ainda mais dois prédios que hoje servem como hospital e escola. Os portugueses chegaram à cidade para explorar a plantação de açúcar, tomaram posse da terra e construíram suas propriedades em latifúndios durante anos. Escravizaram muitos pobres lavradores que foram arrancados de suas pequenas propriedades violentamente, enganados com as promessas que faziam–lhes. Alguns lavradores venderam suas terras porque não tinham o maquinário nem gente suficiente para plantar e ter uma boa colheita, assim acreditavam que ajudando os portugueses poderiam receber o que precisavam em troca, mas a história foi outra. Dependentes dos portugueses os lavradores sentiam fome e alguns adoeciam de fraqueza a cada dia. A alimentação era escassa e a assistência médica não existia. Quem curava os doentes eram os próprios familiares e amigos com as ervas medicinais da região. Enquanto viveram em Céu Azul os portugueses deixaram suas marcas nas mulheres que escolhiam para satisfazer os seus desejos carnais. Nasceram muitas crianças com pais desconhecidos naquela época. A prefeitura serviu como residência de um dos mais ricos fazendeiros daquela época. O hospital antes serviu como alojamento para os lavradores que perdiam as suas terras. E a escola era o local onde armazenavam a colheita da cana–de–açúcar. Os prédios sofreram algumas reformas, mas nem assim perderam suas características primárias. A riqueza de Céu Azul ficou durante mais de um século nas mãos dos portugueses, até um bravo rapaz chamado João Silva criar uma revolta contra toda aquela situação, revolta que ficou conhecida como a Revolta do Açúcar. Muitas pessoas morreram nesse dia. O próprio João Silva foi preso e enforcado. Mas a revolta continuou até o povo de Céu Azul reconquistar as suas terras.

Maria despediu–se de Paulo com um beijo na face. Já passavam das dez horas da noite, e o sono de vez em quando fazia–lhe abrir a boca. Quando chegou em casa Rita já estava deitada. Tomou um bom banho, vestiu uma camisola de cor rosa, escovou os dentes e deitou–se. Ficou pensando nas palavras de Paulo. Ele parecia meio revoltado. Não tinha mudado muito. Continuava invejoso e vingativo. Era um homem elegante, de boa conversa, mas sem ideia de compromisso sério. Recordou–se de uma mulher alta, loura e muito bonita que ele às vezes levava–a para jantar na casa dos seus pais. Depois que Maria foi morar em Céu Azul chegou a vê–lo umas duas ou três vezes com essa mesma mulher em capas de revistas. Não fazia muito tempo que folheando um jornal viu os dois outra vez juntos. Era uma fotografia bonita e Paulo alegava serem apenas bons amigos, apesar da imprensa dizer o contrário. O que será que tinha acontecido entre eles?

O dia amanheceu ensolarado. Acordou tarde. Deu um pulo da cama, correu ao banheiro, tomou banho e tomou o seu café da manhã às pressas. Procurou por Rita, mas ela já tinha saído.

Foi um dia calmo na prefeitura. O prefeito não compareceu e o vice parecia um pouco cansado. Deixou alguns papéis na mesa do prefeito dentre eles um projeto de uma escola de tempo integral às crianças da região. Seria uma escola diferente das outras, nessa as crianças passariam o dia todo estudando e praticando esportes. Maria era o braço direito do prefeito. Tinha tanta confiança nela que não assinava nenhum papel sem a sua consulta. Era prazeroso sentir–se responsável. Lembrou–se do dia em que a Câmara requisitou–a para que fosse trabalhar com eles por uns tempos, mas o prefeito de imediato negou a solicitação alegando que a prefeitura precisava muito do seu trabalho e que ninguém conhecia os problemas e as dificuldades que existiam ali tão bem o quanto ela. Seria quase impossível encontrar alguém que pudesse ajudá–lo com tantos problemas, alegou. Mostrando interesse em permanecer na prefeitura Maria manteve–se em silêncio deixando que as partes interessadas brigassem e chegassem a um entendimento. O prefeito acabou ganhando.

O telefone tocou despertando–a dos seus pensamentos. Estava sentada num birô de madeira marrom escuro, por trás dela uma estante cheia de livros.

– Devo chegar mais tarde. Não me espere para o jantar. Tem umas coisas atrasadas aqui que eu preciso terminar – Maria falava ao telefone com sua amiga Rita.

Era tarde quando ouviu alguém chamar seu nome do outro lado da porta fechada. Era uma voz masculina que logo reconheceu, era Paulo. O que ele queria ali? Pensou. Levantou–se e foi abrir a porta.

– Acho que você está trabalhando demais. Já são oito horas da noite. Não está com fome? – Paulo entrou no escritório, sorridente.

– Como me achou aqui? – Maria convidou–o a sentar–se numa cadeira de couro.

– Não foi difícil. Fui até a sua casa e sua amiga me disse que você ainda estava aqui. Pensei que seria uma boa ideia convidá–la para jantar comigo já que estarei partindo daqui a dois dias – disse Paulo sentado bem à vontade na cadeira.

– Partir? Mas como? Você não me disse que tinha comprado umas terras e a safra de melão dos fruticultores!

– Disse. Mas preciso ir resolver outras coisas. Deixarei tudo sob os cuidados de um grande amigo.

– Ainda não acredito que tenha feito negócios aqui. O Nordeste é uma fonte de riqueza para muitos. O problema da seca não será resolvido enquanto não se fizer uma política de desenvolvimento séria. O nordestino é a imagem cruel desta seca.

– Vejo que seu trabalho ao lado do prefeito está lhe ensinando muitas coisas. Você já fala como se fosse uma política – comentou Paulo com ironia.

– Não, Paulo. Eu falo como uma nordestina que foi com a família tentar a vida na cidade grande e acabou precisando ser comprada para voltar à cidade natal. Meus pais foram comprados para que eu ficasse bem distante do seu irmão. Recebemos dinheiro para papai fazer a cirurgia dos pulmões, comprar terras e viver da agricultura, afinal esse era o sonho dos meus pais.

– Tenho certeza que seus pais não acharam isso ruim. Pelo que sei vocês moraram durante anos num bom sítio e viveram muito bem.

– Meus pais, sim. Eu, não. Não posso dizer que isso foi ruim, claro que não! Meus pais tiveram uma vida feliz. Mas eu nunca fui feliz longe do seu irmão. Nunca mesmo.

Quando acabou de falar Maria tinha a voz trêmula e as mãos frias, coitada. Houve um silêncio entre eles durante alguns minutos. Paulo que antes sorria ficou sério e sem palavras. O que ouviu era a mais pura verdade. Bem mais velho do que Pedro para ele foi mais fácil deduzir que Maria foi vítima dos seus pais. Trazia consigo o sentimento de culpa por ter participado, em parte, com seus pais de tudo aquilo. Com inveja do seu irmão quis destruí–lo contribuindo com o afastamento de Maria da sua casa. Mas não podia fazer nada. Era louco por ela. A beleza negra de Maria fascinava os dois irmãos. Era uma pena que os seus pais quisessem como esposa para os seus filhos um modelo de mulher europeia e não uma típica cidadã brasileira. Mas não era assim que ele e Pedro pensavam, afinal estavam apaixonados pela mesma mulher. Por Maria os dois irmãos se desentenderam e brigaram como cão e gato. Os pais dos dois jovens achavam aquilo ridículo e discordavam completamente. O senhor Martins dizia que criou Maria como uma filha dentro da sua casa e entre irmãos não podia existir aquele tipo de amor. O que Paulo não esperava era que ela fosse se apaixonar justo pelo seu irmão que só tinha tempo para os estudos. Inconformado jurou acabar com aquele amor e ajudar seus pais a separar os dois.

– Sinto muito que isso tenha acontecido, Maria. Mas você deve ver as coisas por outro lado. Nem meus pais e nem os seus iriam aceitar você e Pedro juntos. Nós fomos criados como irmãos. Lembra quando sua mãe soube da verdade?

Lembranças era tudo o que tinha na memória. Sua mãe deu–lhe uma pancada no rosto na frente de todos quando soube do que estava acontecendo. Chamou–a de vagabunda e prostituta. Maria foi pega na cama de Pedro na véspera do seu aniversário de quinze anos. Foi preciso segurar seu pai para não agredi–la, também. O pior de tudo é que ninguém quis ouvi–los, pois nada tinha acontecido entre eles além de beijos e abraços. Pedro apesar da sua pouca idade sabia das suas responsabilidades e Maria era uma jovem inteligente.

– Deixe–me só, Paulo. Preciso terminar meu serviço – Maria voltou ao seu birô sentindo–se tonta com a enxurrada de lembranças.

– Desculpe–me por tê–la aborrecido. Pensei que ficaria feliz com a minha companhia. Boa noite – Paulo levantou–se da cadeira e saiu sem olhar para trás.

Maria procurou concentrar–se no serviço. Estava confusa e muito cansada. Tinha feito um juramento a si mesma de não mais mexer no passado, mas parecia impossível viver sem olhar para trás. Um medo tomou conta dela depois de reencontrar Paulo. Sabia que para voltar a rever Pedro seria capaz de qualquer coisa. Recordou o sorriso dele que era sempre largo e encantador. Comparando a beleza conservada de Paulo, pensou se Pedro também tinha conservado a sua beleza juvenil.

Arrumou o seu birô e guardou os livros na estante de madeira. Passavam das vinte e duas horas, era melhor ir para casa. As estrelas decoravam o céu com seus pontos luminosos e a lua cheia brilhava intensamente. Ouviu uma canção romântica ao longe, logo concluiu que não sofria sozinha. Existia alguém ali que também sofria de amor e expressava seu sentimento na letra da música que entoava em voz alta. Caminhava em passos lentos. A volta ao passado mexeu com ela. Estava passando em frente ao hotel onde Paulo estava hospedado quando pensou em procurá–lo e pedir–lhe desculpas por ter sido grossa. Tomada por um rápido impulso quase entrou no prédio quando percebeu o que estava fazendo voltou atrás e saiu apressada para casa – Está louca, Maria? – perguntou–se.

– Maria, como você custou! Pensei que iria passar a noite trabalhando – Rita estava sentada na poltrona da sala assistindo novela.

– Desculpe–me, Rita. É que fiquei terminando um trabalho e acabei esquecendo a hora. Estou faminta – Maria jogou a mochila na poltrona ao lado de Rita e foi direto para a cozinha.

– Ah! Quase me esqueço. Aquele seu amigo novato esteve aqui. Falei que você estava na prefeitura. Até pensei que você estivesse com ele – disse Rita com um leve sorriso.

– Por que ri? Não quero mais vê–lo. Ele me traz lembranças de um passado muito doloroso. Pensei ter cicatrizado algumas coisas, mas a ferida ainda está aberta – Maria encostou–se à janela e ficou olhando para a lua.

– Pois eu acho que você precisa saber de algo – Rita ajeitou–se na poltrona.

– Vejo que você andou conversando muito com Paulo. Não me importa o que ele lhe disse. Não se assuste com a minha grosseria, Rita, é que nem você e nem ninguém pode entender a minha dor.

– Sou sua amiga, Maria. Amigos dividem alegrias e tristezas. O que está acontecendo? – Rita levantou–se da poltrona e se aproximou de Maria.

– Desculpe–me, amiga. Venha cá. Me dê um abraço – Maria abraçou a amiga com carinho.

– Por que está tão triste, Maria? Por que não reza um Pai–Nosso para Padre João Maria?

– Eu não consigo entender por que meus pais aceitaram aquele dinheiro dos pais de Pedro. Eles sabiam que eu seria infeliz para o resto da vida. Eles sabiam que nos amávamos.

– Os nossos pais também erram, Maria. Quem sabe eles acharam que estavam lhe fazendo o bem. Pense assim. Irá sofrer menos.

Rita tinha muita coisa para dizer à Maria, mas precisava ficar em silêncio, pelo menos por enquanto. Paulo disse coisas maravilhosas sobre Maria, mas não podia dizer nada para ela, pois não acreditaria. Ainda estava muito aborrecida. Se um dia tivesse a oportunidade poderia contar–lhe o que Paulo disse naquela noite. Talvez o tempo não permitisse que o destino de Maria fosse a solidão, pensou Rita.

Maria não dormiu bem. Acordou com um barulho de vozes vindas da rua. Correu até a janela e viu algumas pessoas se reunindo na praça central da cidade. Era um ato contra o prefeito. Um carro de som fazia críticas a uma administração de falcatruas. Imediatamente vestiu uma roupa e foi para o local onde estava a concentração. Queria saber de perto o que estava acontecendo. Um rapaz segurava um cartaz que dizia: “Prefeito marajá, nós queremos trabalhar!” Não entendeu o porquê de tudo aquilo, uma vez que o prefeito estava se empenhando para aumentar o número de empregos. Apressada, correu para o prédio da prefeitura. Ainda era cedo e o prefeito ainda não tinha chegado, nem ele e nem o vice. Nervosa pegou o telefone e ligou para a casa do prefeito.

– Mas o Senhor tem que fazer alguma coisa! O povo está gritando lá na praça e já começa a juntar muitas pessoas – falava em voz alta devido a interferência que havia na linha telefônica – Então digo–lhes que o Senhor já está tomando providências e que terá uma solução em breve, não é isso? – Maria ouviu um sim trêmulo na voz do prefeito do outro lado da linha.

Bem, precisava cumprir a missão dada. Iria até a praça. Chegando lá pediria a todos que tivessem calma, em breve teriam uma resposta do prefeito. Ensaiou tudo com cuidado. Aquela era uma tarefa para o vice–prefeito, mas ele sempre sumia nas horas de sufoco, demonstrando covardia e ingratidão à sociedade. Pois bem, problemas mais difíceis do que aquele já tinha enfrentado. Prendeu os cabelos com um broche de plástico, ajeitou a roupa e saiu em direção à praça.

– Senhores, por favor me escutem! Senhores, por favor só um minuto de atenção! Estou representando o prefeito – nem acabou de falar e as pessoas começaram a dar vaias – Por favor, peço que me escutem, serei rápida. O prefeito mandou dizer–lhes que logo mais, à tarde, terá uma boa resposta para vocês – A multidão fez um círculo em volta dela.

– Que tipo de resposta? A mesma de sempre? Prometeu acabar com o desemprego na cidade e até agora nada fez. Sabemos das mordomias que ele e a família estão vivendo. Ou vai nos dizer que foi um presente o carro importado que anda desfilando com ele pela cidade? – Um rapaz moreno afastou–se do outros e ficou de frente para ela exigindo explicações.

– Não sei do que está falando. Desconheço a existência desse carro. Na verdade só estou aqui para ajudá–los. Não iremos chegar a lugar algum com baderna. Precisamos conversar. O prefeito está preocupado com a economia da cidade, é claro! Está fazendo o possível para solucionar o problema do desemprego – Maria tinha a voz firme, em bom tom, parecia uma política experiente.

As pessoas foram se acalmando aos poucos quando ela falou que o prefeito se prontificou de receber uma comissão às três horas da tarde para discutir o problema. Voltou à prefeitura, pois tinha muita coisa para fazer. Ficou pensando na possibilidade de um dia ser eleita prefeita de Céu Azul. Faria da sua cidade a mais bela do mundo. Acordou dos seus pensamentos com a entrada de um homem baixo, meio calvo, gordo e bigodudo na sua sala.

– Bom dia, Maria! Soube que você se saiu muito bem lá na praça. Parabéns! – disse o homem em tom irônico – Desse jeito vai acabar tomando meu lugar.

– Aquelas pessoas não estão brincando, Jânio. Elas têm fome, frio e ainda um pouco de forças. É preciso fazer alguma coisa urgente. O desemprego cresceu bastante nos últimos meses. Com o fechamento da Frutecel o número de desempregados aumentou ainda mais – Maria estava sentada no seu birô.

– Não se preocupe com isso, filha. O prefeito tem um encontro marcado agora pela manhã com o forasteiro que anda distribuindo simpatia aí pela cidade. Vão acertar alguns negócios, dentre eles está o caso da Frutecel – Jânio estava encostado na porta com uma pasta escura embaixo do braço esquerdo.

Maria quase não acreditou no que ouviu. Paulo estava envolvido com os assuntos políticos da cidade! Há tão pouco tempo por ali! O que será que ele e o prefeito iriam discutir na reunião? Por que ele estava tão interessado nos problemas de Céu Azul se iria partir em menos de dois dias? Perguntas que Maria não encontraria respostas senão falando com o próprio Paulo.

– Maria! Estou falando com você. No que está pensando? – Jânio ajeitou a gravata borboleta de cor azul.

– Desculpe–me. É que eu estava pensando em algo. Que interesse tem Paulo com os problemas da nossa cidade?

– Você o conhece? Diga–me quem é ele, e se realmente dispõe de tanto dinheiro a ponto de querer comprar e reabrir a Frutecel? Além de querer comprar também as terras do prefeito que estão arrendadas aos fruticultores. É um louco ou realmente acha que Céu Azul está preparada para tanta tecnologia? – Jânio começou a andar no meio da sala.

– Não sei nada sobre ele. Conversamos um pouco na noite de ano novo, mas não consegui descobrir muita coisa. É um visitante passageiro, não creio que leve a frente essa ideia de comprar a Frutecel, uma empresa falida e cheia de dívidas – Maria quis aparentar indiferença ao assunto.

Era melhor que as pessoas não soubessem que Paulo era um velho conhecido. Diria que também o conheceu ali e sabia tanto quanto os outros sobre a vida dele. Seria melhor permanecer em silêncio, às vezes, Paulo causava surpresas não muito boas.

– Andam comentando sobre vocês na cidade. Sei que sabe de mais coisas, Maria. Por que não me fala? Se seu amiguinho aplicar um golpe você poderá se prejudicar. O prefeito não vai gostar de saber que você escondeu alguma coisa dele – O homem alisava o bigode enquanto falava.

– O que faço ou deixo de fazer quando não estou trabalhando, diz respeito somente a mim. E se sou amiga do forasteiro, como prefere chamá–lo, isso é um problema meu. Parece–me que você está com medo ou é impressão minha? Não se preocupe, Jânio. O pouco que conheço desse homem permite–me dizer que ele não tem vocação alguma para a política.

Sem dizer palavra alguma o homem retirou–se da sala batendo a porta com força. Talvez estivesse aborrecido por não ter sido convidado pelo prefeito para a reunião. Mas na verdade tinha falado algo que a assustou. Se continuasse a manter encontros com Paulo, e de repente ele aprontasse alguma coisa errada poderiam mais tarde cobrar–lhe informações. Porém, não podia deixar de lado uma amizade simplesmente porque ele era um desconhecido.

O dia escureceu cedo. Cansada não quis ficar até mais tarde na prefeitura, queria ir para casa. Ao passar em frente ao hotel que Paulo estava hospedado sentiu uma vontade enorme de saber notícias dele. Não resistiu a tentação e acabou entrando no hotel. Perguntou a recepcionista qual o apartamento dele que logo indicou–lhe o caminho.

– Oh! Que surpresa boa! Pensei que não queria mais me ver. Entre. Estava analisando a papelada da Frutecel.

Paulo vestia um calção branco e uma camiseta vermelha sem mangas. Os cabelos estavam molhados e parecia que tinha acabado de tomar banho.

– Vim pedir–lhe desculpas pelas minhas palavras de ontem à noite. Você foi tão gentil e eu acabei lhe magoando. Você não tem nada a ver com o que os seus pais fizeram. Era bem jovem como eu – Maria sentia–se meio sem jeito.

Era um apartamento pequeno. Tinha apenas uma cama de casal, um armário embutido, banheiro, uma mesinha de mármore com duas cadeiras e uma poltrona macia para descanso. Nunca tinha ficado sozinha com um homem num espaço tão apertado.

– Aceita um café ou prefere um suco? – Paulo tirou umas roupas de cima da cadeira para que ela pudesse sentar. – Não olhe a bagunça. Pedi para fazerem a faxina logo mais, tem muito papel espalhado por aqui. Por favor, sente–se.

– Estou contente por saber que você pretende reabrir a Frutecel. Isso será ótimo, Paulo. Irá diminuir o índice de desempregos na cidade e muitas famílias voltarão a viver melhor. Você salvou o prefeito hoje.

– Não fiz nada, Maria. Quem fez o trabalho duro foi você. Tive a oportunidade de vê–la falando em público pela manhã. Acalmou as pessoas com tranquilidade e firmeza nas palavras – Paulo ainda estava em pé.

– Você estava lá? – Maria perguntou, surpresa.

– Ia passando quando parei para observar o que estava acontecendo. Por um momento pensei que aquela Maria tímida e frágil parecia um gigante no meio das feras.

Paulo imitou Maria. Ambos sorriram como duas crianças. Conversavam animadamente como se a noite anterior não tivesse existido. Paulo fez–lhe uma brincadeira lendo as suas mãos. O lanche que pediram interrompeu o momento de divertimento e ternura que viviam naquele momento.

– Estou faminto. Se você for vagarosa acabo comendo o meu prato e o seu – Paulo tomou um gole do seu suco de laranja.

Maria observou as pernas peludas e musculosas de Paulo. O calção apertado deixava–o másculo e sedutor. O olhar de Maria passou devagar por elas, o que fez com que ele percebesse. Envergonhada fixou o olhar no sanduíche. Mas Paulo provocou–a tocando seu joelho no dela. Estavam sentados muito próximos um do outro.

– Acho que você está preso a cidade. Com tantos negócios para resolver creio que não poderá passar tudo para outra pessoa, pelo menos no começo.

– Não tenho pressa em partir. Nem sei se ainda vou. Acho que encontrei meu caminho. Estou envelhecendo e preciso tomar um rumo na minha vida.

Maria não lembrava a idade de Paulo, mas sabia que ele era mais velho do que Pedro. Talvez tivesse uns quarenta anos. Nada nele demonstrava envelhecimento. Sentiu uma sensação diferente correr seu corpo por alguns segundos e assustou–se com o calor que começou a sentir de repente.

– Devo ir embora, Paulo. Está ficando tarde e tenho que passar no supermercado para comprar umas coisas que estão faltando em casa – levantou–se e arrumou a saia.

– Não! Fique mais um pouco. Gosto de conversar com você. Está tão agradável! – imediatamente Paulo ficou em pé diante dela.

Estavam tão próximos que podia ouvir a respiração dele. Sentiu o corpo tremer e as mãos suarem. Procurou algo para se apoiar, mas não conseguiu.

– A gente se fala amanhã. Você também tem muito o que fazer. Estou tomando o seu tempo – sua voz saiu trêmula.

Paulo acabou percebendo que Maria estava muito nervosa. Talvez por se dar conta que estavam ali tão próximos um do outro. Teve vontade de sorrir pelo seu rostinho espantado, mas preferiu ficar em silêncio. Maria não era como as outras mulheres que tinha conhecido. Elas não tinham aquele jeitinho tímido e assustado. Sentiu um desejo enorme de beijar seus lábios e não resistiu. Tomou–a nos braços e beijou–a suavemente.

Maria não negou o beijo. Não podia reagir aos anseios do seu corpo. Só a razão recusava aquele momento delicioso. Há anos não beijava alguém. Sem contar que já tinha provado uma vez o sabor daquele beijo quente e doce. Seus corpos estavam colados e podia sentir mais ainda a musculatura das pernas de Paulo.

– Por favor, deixe–me ir. Não sei o que estamos fazendo – empurrou–o com os braços afastando–o.

– Não tenha medo. Gosto de você. Não lhe farei mal algum. Você precisa de mim, Maria – ele tentou aproximar–se, mas foi impedido.

– Não preciso de ninguém. Não sou mais aquela menina tola que você e seu irmão tiraram proveito no passado. O que aconteceu agora deve ser esquecido – Maria ajeitou os cabelos jogando–os para trás.

Paulo não encontrava as palavras certas para tranquilizá–la, quanto mais falava mais complicava as coisas.

– Você quase me implorou com os olhos para que a tomasse nos braços, Maria. Não queira ser vítima. Acha que não percebi seu olhar? Um homem sabe muito bem quando uma mulher necessita de carinho e de amor e você está precisando de tudo isso – Paulo falou alto.

Bastante aborrecida Maria pegou a sua bolsa e se foi apressada. Ele pensou em impedi–la, mas preferiu deixá–la ir. Maria precisava de tempo para pensar. Tinha pouca experiência no amor e lembranças que lhe faziam ser uma mulher cheia de temores. Quem não a conhecesse bem podia até achá–la mulher forte, pois demonstrava firmeza e prudência nas suas palavras e atitudes. Paulo sabia que podia fazer dela uma grande mulher, e lutaria para conquistá–la. Como também seria uma forma especial de se vingar do seu irmão, Pedro. Casando–se com Maria morariam na casa dos seus pais e a sua família teria uma grande surpresa.

– Ei, o que aconteceu? Você está bem? – perguntou Rita, preocupada.

Maria entrou em casa cabisbaixa, soluçando, com os olhos cheios de lágrimas. Tinha corrido do hotel até a sua casa. Seus dois últimos encontros com Paulo deixou–a muito nervosa e assustada. Não sabia ao certo o que estava querendo provar a si mesma. Seu corpo suplicava estar ao lado dele, mas seu pensamento, seu coração, só queriam Pedro. Era como se estando perto do irmão pudesse sentir a presença do outro. Devia afastar–se de Paulo ou as coisas se complicariam para o seu lado, pensou.

– Rita, não me deixa fazer bobagem alguma. Se consegui chegar até aqui esses anos todos é porque sou uma mulher de garra e não posso fracassar agora – Maria abraçou a amiga, chorando.

Rita levou–a para o quarto e depois preparou um chá de erva cidreira para ela, diziam que era bom calmante. Estava preocupada com o jeito de Maria naqueles últimos dias, mas não queria aborrecê–la com perguntas. Conversou com Paulo sobre ela e ficara surpresa com o que ouviu ele dizer. Seria bom que Maria soubesse do amor que ele sentia por ela, mas não teve a oportunidade de poder contar–lhe. – Ah! Maria, se você soubesse o quanto aquele homem a ama, minha amiga – pensou Rita, recordando o rosto de Paulo ao falar docemente de Maria.

– Quero que vá para a cama assim que terminar seu jantar. Sei que está muito cansada.

– Estou melhor, Rita. Obrigada. Creio que você deve estar curiosa para saber o que aconteceu comigo – Maria tomava o chá que Rita tinha preparado.

– Um pouco. Estou mesma é preocupada com você. Tem dormido muito tarde. Nunca vi você chegar em casa chorando assim como se as coisas estivessem dando errado. Sou sua amiga, Maria. O que está acontecendo com você? – Rita ajudava–a a cobrir–se.

– Não sei o que está acontecendo comigo. Acho que você sabe do que estou falando. Depois que encontrei Paulo as coisas não são mais as mesmas. Há três dias eu era uma pessoa e hoje sinto–me outra. Você entende o que quero dizer?

– Entendo, sim. A presença de Paulo lhe incomoda por dois motivos: primeiro porque ele lhe faz lembrar Pedro que você deveria esquecer, segundo porque Paulo é um homem atraente, educado e está loucamente apaixonado por você. É confuso, mas entendo sua situação. Acorde, Maria. Pedro é passado. Paulo está aqui tão perto de você – Rita segurava as mãos dela sentada na cama.

– Não amo Paulo. Posso machucá–lo se levar isso adiante. Você tem razão quando diz ser ele um homem atraente, talvez seja isso que está me perturbando. Nós estávamos conversando ainda há pouco e de repente nos beijamos. Fiquei tão sem jeito com aquele beijo. Saí de lá correndo com medo de mim mesma.

Passaram algum tempo conversando, o que foi bom para Maria, pois pôde contar com a ajuda da amiga para desabafar o que sentia. Tinha medo de se machucar, machucar Paulo e até mesmo outras pessoas. Mas nunca em sua vida amou outro homem além de Pedro, que não o viu tornar–se um homem maduro. Fazia tantos anos que morava em Céu Azul e nunca se apaixonara por rapaz algum da cidade, sempre recordando–se de Pedro. Paulo estava ali, próximo dela, um homem irresistível. O seu corpo sentia a necessidade de ser tocado, acariciado, amado. Esperar por Pedro? Até quando? Por que não amar Paulo? O que a impedia? Um passado não significa muito diante de uma realidade desafiadora.