Danda Trajano

Para além do verde

Capítulo III

A data da reinauguração da Frutecel foi cancelada. A cidade estava tensa, e as pessoas exigiam soluções para a crise do desemprego. O prefeito declarara guerra contra Paulo, e negou qualquer tipo de apoio da prefeitura. Porquanto, Paulo não se deixara amedrontar e tornou a dizer–lhe que não colocaria a sua filha na direção da empresa. Chico andava assustado porque tinha recebido ameaças pelo telefone para não aceitar o cargo de diretor da Frutecel. A situação se complicava à medida que Paulo não dava ouvidos às ameaças do prefeito e continuava seu projeto lentamente. Odiou o fato do adiamento da reabertura da Frutecel, porém as melhores terras para a plantação das frutas pertenciam ao prefeito, que antes se comprometera de arrendá–las em troca e participação nos lucros, porém negava–se a fechar o acordo se Paulo não aceitasse sua filha na diretoria. Com esse impasse a Frutecel não podia ser reinaugurada, pois era preciso que se plantasse em terras produtivas, irrigadas e com boa mão–de–obra. Havia muitos proprietários de minifúndios que ofereceram seus serviços à empresa, eram grupos de fruticultores com experiência no campo que podiam fazer um bom trabalho. Talvez pudesse inaugurar a Frutecel através desses fruticultores, mas correria o risco da perda de qualidade. Apesar da cooperativa dos mesmos se comprometer com a qualidade das frutas. Era melhor esperar um pouco mais e ter suas próprias terras com mão–de–obra qualificada. Sem contar com os problemas da empresa, Paulo ainda tinha que ver os preparativos para o casamento com Maria e organizar os preparativos da festa.

– Ouça, meu amor. Eu vou precisar ir à capital. O governo do estado é amigo de papai, sei que posso obter um voto de confiança dele. Devo passar dois ou três dias não mais do que isso. Chico vai cuidar de vocês – Paulo acariciava os cabelos de Maria que tinha a cabeça encostada no seu ombro esquerdo.

– Tenho me preocupado com você, Paulo. O prefeito ainda tem o poder na cidade, e as pessoas por enquanto estão do seu lado, mas amanhã talvez estejam contra. Elas querem trabalhar, terras para plantar, alimentação, saúde e educação.

– Não se preocupe, princesa. Tive uma conversa hoje à tarde com o editor do Jornal da Manhã. Ele prometeu me ajudar. Assim que estiver de volta será publicada uma matéria contando o que o prefeito tem feito com o dinheiro da prefeitura.

– O pouco que conheço do prefeito posso afirmar que é uma pessoa covarde e vingativa. Chico continua recebendo ameaças pelo telefone. E teme que alguma coisa venha a lhe acontecer. O delegado nada pode fazer porque falta–lhe recursos para identificar o responsável pelas ameaças.

– Quem quer fazer não ameaça. Chico não tem com o que se preocupar. Princesa, vamos falar um pouco de nós dois. Gostou da casa que comprei para morarmos? Não vejo a hora de estarmos casados e morando naquele paraíso – Paulo beijou o rosto de Maria, docemente.

A casa sem dúvidas era muito bonita. Grande, uma verdadeira mansão, localizada numa área nobre da cidade, rodeada por árvores, de muro alto e um belo jardim lá dentro. Não estava à venda. Mas Paulo sabia que aquela era a casa que sua noiva tanto sonhara, depois de morar numa casinha de taipa com seus pais quando chegaram naquela cidade. Um dia, quando passavam em frente à casa Maria contou–lhe do quanto desejava entrar nela só para conhecê–la. Paulo fez várias propostas ao proprietário, que depois de cobrar uma fortuna, acabou vendendo–a.

– Fiquei muito feliz, Paulo. É a casa dos meus sonhos. Deve ter sido muito caro! – Maria fitou–o.

Paulo viajou no dia seguinte. Ia determinado a por fim na ditadura do prefeito. Obtendo a confiança do governo do estado e tendo o apoio da câmara de vereadores de Céu Azul, o prefeito seria obrigado a recuar e desistir da batalha.

Maria aproveitou o tempo que Paulo estava distante para estudar um pouco. Desde que as aulas começaram ainda não tinha lido nada, sem contar com as aulas que vinha perdendo. O trabalho na prefeitura tornara–se chato e cansativo. O prefeito quase não falava mais com ela, e o vice vivia criticando–a quando algo não saía da sua forma. Naquele momento, concentrada num texto que datilografava, não viu quando uma mulher entrou na sua sala e ficou fitando–a por alguns minutos.

– Finge que não me ver, Maria? Pois acho bom olhar bem para mim, porque tenho algo para lhe dizer – A mulher falou em voz alta.

Maria levantou a cabeça e olhou para Auxiliadora com determinação e coragem. Não tinha motivos para entrar em desespero, era hora de saber defender–se.

– O que quer de mim? Estou trabalhando, Auxiliadora. Como vê tenho muita coisa para fazer ainda hoje. Se for sobre Paulo prefiro que marquemos outro horário, não gosto de misturar assuntos profissionais com particulares – Maria falou em tom forte e firme.

– Não tomarei muito seu tempo. Quero apenas que veja esses recortes de jornais, esses documentos, e essas cartas. Acho que conhece seu noivo há muito tempo, mais do que imaginei. O que você aprontou, Maria? Para um homem colocar um detetive atrás de você e escrever estas coisas deve ter algo escondido atrás de tudo isso – Auxiliadora jogou na mesa alguns recortes de jornais, papéis e a agenda de Paulo onde tinha o telefone de um detetive particular.

– Não sei o que isso significa. O que você quer, Auxiliadora? Deixe–me em paz. Você não tinha o direito de vasculhar as coisas de Paulo. Como conseguiu essas coisas? – Maria segurava uma das fotos.

– Como você é inocente, Maria. Veja. Conhece essa chave? Deve ter uma dessas, não? Ah! Quantas mulheres na cidade têm uma chave dessas? – Auxiliadora deu uma gargalhada, enquanto girava a chave no seu dedo.

Era a chave do apartamento de Paulo. Maria não podia acreditar naquilo. Será que Paulo estava de caso com Auxiliadora? Enfim, o que queria ele? Maria se perguntou.

– Vá embora, Auxiliadora. Já fez o que queria – pediu Maria com a voz trêmula.

– Pois é. Tenho a chave, sim. E tem mais: dormimos juntos várias noites. É um homem e tanto! Acho que você é uma arma para ele. É o que diz esta carta, leia.

Auxiliadora retirou–se da sala com sabor de vitória no rosto. Tinha conseguido feri–la. Não se importava se Paulo tinha ou não dormido com ela, não o amava verdadeiramente. Mas o que explicaria o ciúme que corria em suas veias? O ódio que sentia em recordar as palavras de Auxiliadora. Examinou os recortes de jornais. Em um deles estava ao lado do prefeito no dia da inauguração da barragem, em outro recorte aparecia outra vez ao lado do prefeito no dia da sua posse. Porém, quando pegou uma carta escrita por Paulo, chocou–se com suas palavras. Não tinha nome de destinatário. Apenas palavras de vingança, mágoas, rancor. Era um homem tomado pelo ódio. Incrível como ele sabia esconder aquilo para os outros. Na carta falava dela com carinho e que tinha encontrado a maior arma para vingar–se de Pedro e de toda a sua família. Maria pegou outra carta que novamente relatava a proximidade da vingança e que deixava claro para quem lesse que Pedro era o alvo. O telefone do detetive tanto estava na agenda de bolso como nos documentos de fax que Paulo recebera dele. Tinha investigado durante anos onde a família de Maria estava morando e encontrou. Tomada pela ansiedade e curiosidade tombou, sentindo um pouco de tontura. Sentou–se e reuniu tudo em uma pasta de documentos. Arrumou suas coisas e foi para casa, não se sentia bem.

O silêncio do seu lar era o melhor local naquele momento. Agora sabia o que Paulo veio fazer em Céu Azul. Era um homem sem escrúpulos, não tinha mudado nada. Queria vingar–se do irmão através dela. Mas por que seria a sua melhor arma de vingança? Será que Pedro ainda sentia alguma coisa por ela e sabendo disso Paulo queria aproveitar–se? Seria possível mesmo casado, com uma família que Pedro ainda carregasse no peito o mesmo amor de menino? Seus pensamentos estavam atordoados e não conseguia ordenar as ideias. Era melhor descansar e esquecer o susto e a maldade que Auxiliadora aprontou.

O telefone tocou despertando–a dos seus pensamentos. Olhou o relógio e viu que tinha dormido quase toda a tarde. Preferiu não atender, pois podia ser Paulo. Era melhor não falar com ele por enquanto. Maria foi à cozinha preparar um lanche. Vestia uma saia amarela e uma blusa branca sem mangas. Preparou um suco de caju e foi para a sala. Olhou a pasta onde estavam guardados os documentos que Auxiliadora entregou–lhe. Era melhor dar um jeito de devolvê–los ao lugar de antes. Passou o resto da tarde lendo as poesias desassossegadas da sua querida poetisa Auta de Souza.

– Maria, aconteceu uma tragédia! – Rita entrou em casa assustada.

– Rita!  O que foi que aconteceu? Por que está assim tão abatida? – Maria que limpava o pequeno jardim cultivado em frente de casa, levantou–se apressada.

– Eles pegaram Chico. Ele está ferido no hospital. Dessa vez o prefeito não tem culpa nenhuma, pois foi o próprio quem prestou socorro.

– Chico ferido?! Como foi? Vamos, diga–me o que aconteceu, mulher – Maria limpou as mãos sujas de adubo na calça de algodão que vestia.

– Ele voltava da Frutecel a pé, quando foi pego por dois homens que lhe bateram bastante. Tem hematomas por todo o corpo e sente muitas dores. Ele não viu o rosto dos homens.

As duas foram para o hospital apressadas. Lá chegando encontraram os pais de Chico e alguns parentes.

– Meu filho nunca fez mal a ninguém. Esse forasteiro está trazendo a infelicidade para a nossa cidade. Primeiro essa história de reabrir uma empresa falida e cheia de dívidas, depois o desentendimento com o prefeito e agora meu filho nesse estado – falava brava a mãe de Chico no corredor do hospital.

Era uma senhora gorda e baixa. Parecia uma boa pessoa, mas não tinha cultura. Maria ouviu–a falar sobre Paulo calada. O que dissesse poderia ser prejudicial para ele. Se o povo começasse a ver as coisas daquele modo, ele poderia se prejudicar.

– Como está Chico? Vocês já têm alguma ideia de quem fez isso com ele? – Rita perguntou ao pai de Chico que parecia mais calmo.

Depois de uma espera de mais de uma hora, o médico informou–lhes que seria melhor deixá–lo descansar. Sentia dores, por isso tomou alguns analgésicos que o fariam dormir. A mãe não se conformava que podia ter sido uma coincidência e de repente não ser nada de vingança e sim ladrões. Como ficou provado pelo prefeito que prestou–lhe socorro, Chico estava sem a sua carteira e sem o relógio de pulso.

– Rita, é melhor irmos para casa. Chico já está medicado e seu estado é bom. Você descansa um pouco e à tarde poderá voltar. Não adiantará ficarmos aqui – Maria sentou–se ao lado da amiga na cadeira da sala de recepção do hospital.

Rita concordou com ela e foi se despedir dos pais de Chico. A senhora olhava para Maria com olhar de desprezo.

– Seu noivo é responsável pelo que está acontecendo com meu filho. Tem trazido desgraças e desentendimento à cidade. É um trambiqueiro. Pensa que somos ignorantes o bastante para confiar nele. Estamos do lado do prefeito. Defenderemos os interesses da nossa cidade com unhas e dentes.

Maria não disse nada, apenas escutou. Chico poderia controlar a situação assim que se recuperasse. Sua mãe estava nervosa, era normal. Para ela só restava torcer que ele sarasse o mais rápido possível e explicasse tudo ao povo. Ou então a sua mãe juntamente com o prefeito arruinariam todo o trabalho de Paulo, e o que era pior, roubariam a confiança que ele tinha conquistado das pessoas.

– Maria? Maria? Dê–me um minuto da sua atenção, por favor – pediu um jovem aproximando–se do grupo no hospital.

Maria afastou–se e foi para um canto da sala com ele. Já o conhecia. Era o editor do Jornal da Manhã. O tal que Paulo tinha lhe falado. Mas o que ele estava fazendo ali?

– Espero que não esteja pensando da mesma forma da mãe de Chico. Se veio falar sobre isso comigo pode desistir – falou Maria, aborrecida.

– Desculpe–me, Maria. Estou aqui para registrar o caso de Chico como é a minha profissão. Porém, o que quero falar com você é outro assunto. Será que pode falar comigo noutro horário? É sobre a matéria que estamos preparando sobre os planos do seu noivo em relação à cidade.

Maria aceitou. Marcaram a entrevista para o próximo dia, à tarde. Iria à prefeitura pegar suas coisas e pedir demissão. Chegara a hora de jogar apenas num time. E se realmente casaria com Paulo era melhor permanecer ao lado dele a partir daquele dia. O golpe baixo de Auxiliadora não a faria mudar de opinião. Se Paulo pretendia casar–se por vingança, ela também tinha motivos de sobra para casar com ele sem ser por amor, como talvez ficar próxima novamente de Pedro. Era uma aposta alta. Dormira com um homem e gostara. Em seus braços sentiu–se realizada. Que explicação teria para as lembranças e a vontade de ficar próxima a Pedro? Seria vingança, também? Melhor não pensar naquilo.

Era tarde da noite, perdera aula, tinha que acordar cedo pela manhã.

– Chico receberá alta hoje. Já se sente melhor – Rita colocava seu café na xícara.

– Ah! Que bom! Assim ele poderá explicar às pessoas tudo o que aconteceu. É meio estranha essa história de assalto. Aqui em Céu Azul todo mundo se conhece. Não creio que haja ladrões assim tão espertos por essas bandas – comentou Maria.

– Tenho algo para dizer–lhe, Maria – Rita fez uma pausa – Chico desistiu da diretoria da Frutecel. Disse que há muita coisa a ser esclarecida sobre o seu fechamento e que Paulo terá muitos problemas com a reabertura da mesma. Muita gente vai ter que se explicar com a justiça se Paulo continuar mexendo nos papéis da Frutecel.

– Então, ele afirmou que esse incidente foi provocado por causa da Frutecel?

– Não. Ele não afirmou nada. Chico está muito cauteloso. Quando fui visitá–lo, à tarde, o prefeito tinha acabado de sair.

Maria começou a juntar as coisas. Se Chico recusou o emprego e estava deixando Paulo no barco sozinho devia haver um motivo mais forte para que fizesse aquilo. Gostaria de conversar com ele, mas o momento não era o melhor. Preferiu esperar o retorno de Paulo, deixar que ele decidisse da sua maneira.

Aquele seria seu último dia na prefeitura. Tinha aprendido muito e adquirido bastante experiência na profissão de secretária da prefeitura. Agradeceria ao prefeito, apesar de tudo, a oportunidade que lhe dera. Chegou cedo e começou a arrumar as suas coisas pessoais numa caixa de papelão. Deixaria uma carta com pedido de demissão e agradecimentos na mesa do prefeito. Estava quase pronta para ir embora quando apareceu o vice–prefeito.

– Bom dia, Maria! Como está a senhorita? Preparando–se para o casamento? – perguntou o senhor Jânio subindo as calças que insistiam em cair com aquela sua barriga enorme.

O homem percebeu que Maria não lhe deu atenção porque estava ocupada demais esvaziando as suas gavetas. Não entendeu o que ela estava fazendo. A curiosidade fez–lhe aproximar–se dela.

– Você está indo embora? Não vai mais trabalhar conosco? – perguntou, espantado.

– Sim, estou. Deixei uma carta na mesa do prefeito. É melhor assim. – Maria parou o que estava fazendo e olhou para ele enquanto falava.

– Por quê? Você gostava de trabalhar conosco, não? Sei que sou um chato, mas sei também de que nunca a magoei profundamente. Desejo que fique, Maria – implorou o senhor Jânio.

O pedido do vice–prefeito surpreendeu–a. Maria esperava que ele comemorasse a sua demissão, mas foi o contrário. Perdeu o sorriso e a voz ficou trêmula.

– Devo casar–me em breve, Senhor Jânio. Acho que uma mulher quando casa deve cuidar do marido e do seu lar – falou.

– Bem, se pensa assim só devo desejar–lhe felicidades. Além do mais não poderia continuar trabalhando aqui com seu noivo e o prefeito inimigos. Espero que tudo termine em paz, Maria. O prefeito é cabeça dura, mas ontem estávamos conversando. Ele me contou que poderá se aliar a Paulo, pois crê que ele só quer o progresso para Céu Azul. Tentei convencer–lhe de que estando ao seu lado poderá obter a confiança das pessoas, e isso será bom para as próximas eleições.

– O senhor acha que ele vai ceder? Paulo precisa do arrendamento das terras. Ele não quer trabalhar com muitos fornecedores de frutas. Quer ter a sua própria terra – Maria explicou.

– Esperemos mais um pouco e o prefeito ficará sem saída. Terá que ceder. Ontem recebeu um telegrama do governo do estado pedindo sua posição sobre a reabertura da Frutecel e sabe o que ele respondeu? – Jânio interrogou–a – Se for para o bem da cidade que ela seja reaberta. Peço–lhe que fique, Maria. Conhece melhor o prefeito do que eu. Nós dois juntos poderemos convencer–lhe melhor.

Maria ficou sem palavras por alguns instantes. Apenas ouvia tudo calada. Foi ordenando os fatos e chegou a uma conclusão. O vice–prefeito era o candidato forte do prefeito. Jânio sabia que se a Frutecel fosse reaberta com o apoio da prefeitura ganharia votos com isso. Não que se interessasse pelo bem do povo, se era considerado o melhor candidato nas pesquisas era porque não tinha outro menos ruim do que ele. O povo dizia que Jânio se parecia com um porco. As eleições seriam no próximo ano e um fato daqueles poderia fazer–lhe ganhar muitos votos.

Depois de ouvir as palavras de Jânio respirou aliviada. Tudo estava ficando em ordem, quando Paulo voltasse poderia continuar seus planos sem problemas. Permaneceria na prefeitura por mais algum tempo. Desarrumou as coisas que estavam na caixa e as colocou de volta em seus lugares de sempre. Deu uma desculpa ao senhor Jânio dizendo que trabalharia até o casamento. Rasgou a carta que deixou na mesa do prefeito. Não foi uma manhã agitada. Apenas datilografou alguns ofícios e arquivou uns documentos no armário de arquivo geral.

Aproveitou a hora do almoço para passar no hotel e deixar os documentos que Auxiliadora pegou de Paulo. Era melhor devolvê–los ao dono. Devia esquecer que tinha visto aquilo. Casaria–se com Paulo como se não soubesse de nada. O que ele imaginaria se descobrisse que ela estava consciente de que o casamento era uma vingança contra o seu irmão? Estariam casados na lei de Deus e dos homens, mas não nos seus corações.

O apartamento tinha o perfume dele. Olhou para a cama e recordou–se da noite que passaram juntos. No colégio ouvia as meninas comentarem sobre os homens e seus desejos. Falavam da primeira noite com dores, medo e sangue. Ouvia as suas amigas, calada. Tinha vergonha daqueles assuntos, sua mãe lhe ensinara que era feio falar daquilo. Quando era interrogada por algumas delas nada sabia dizer, pois quase não teve experiência com homens. Seu primeiro namorado foi Pedro. E só não foi o único a beijá–la porque um dia Paulo roubou–lhe um beijo. Era um namoro bonito. Lembrou–se da primeira vez que ficara nua para Pedro. Nem se deu conta de que seus seios estavam crescidos e que os pêlos da sua vagina começavam a aparecer, quando despiu–se para tomar banho de rio ao lado dele. Só veio perceber que ambos tinham crescido quando se abraçaram nus dentro da água e Pedro deixou que seu sexo tocasse o dela, despertando os mais estranhos desejos. Lembrou–se também do dia em que Pedro pegou Paulo os espionando. Os dois agarraram–se e rolaram na grama brigando feio. Quando os pais deles viram aquilo ficaram horrorizados com as constantes brigas que vinham tendo por causa de Maria. Enfim deixou as coisas de Paulo no hotel e foi embora.

Almoçou em casa. Geralmente elas preparavam o almoço antes de ir para o trabalho. Quem chegasse primeiro preparava o restante. Sequer teve tempo para tomar um banho. À tarde iria com o prefeito fazer uma visita a um grupo de fruticultores que invadiram uma fazenda de propriedade de um dos vereadores da cidade. Eram mais ou menos trinta famílias sem terras para morar e plantar. Uma situação dramática e que devia ser resolvida com muita cautela. Sugeriu ao prefeito retirá–los da fazenda e colocá–los na escola municipal que ficava na zona rural e estava sem aulas naquele semestre. Se eles aceitassem o prefeito teria tempo para pensar numa solução definitiva. As invasões às fazendas estavam se tornando constantes, seus proprietários já se armavam até os dentes para proteger as suas terras. A última invasão quase provocou uma morte indo parar na justiça.

Paulo telefonou–lhe quando já estava de saída. Estaria de volta ao anoitecer. Conseguira o apoio do governo e mais ainda, crédito de um banco na capital. Quando Maria contou–lhe sobre Chico ficou preocupado. Falou também da conversa que teve com o vice–prefeito, deixando–o menos insatisfeito.

– Maria, quero conversar com você antes de sairmos – disse o prefeito – Sei que Paulo foi à capital pedir apoio do governo. É um homem valente esse seu noivo. Achei imprudência da parte dele ter que incomodar o governo com um assunto que diz respeito a prefeitura de Céu Azul. O certo é que já tinha decidido arrendar as minhas terras com ou sem Auxiliadora na diretoria da Frutecel. Estou aborrecido outra vez com Paulo. Recebi um telefonema pessoal do governo ordenando–me a dar toda cobertura ao projeto. Como as terras me pertencem, quero deixar bem claro, que estou arrendando–as não por obediência ao governo, e sim porque tenho uma amizade a zelar com o mesmo. Diga isso ao seu noivo.

– Paulo tentou todos os meios disponíveis para fechar acordo com o senhor. Lamentando–se da sua intransigência decidiu pedir ajuda ao governo do estado. Está interessado no desenvolvimento econômico de Céu Azul. É engenheiro agrônomo, esteve estudando as terras e o clima da cidade por muito tempo. Paulo conhece bem tudo isso, me disse que aqui é o melhor lugar para se plantar frutas tropicais. A industrialização trará à Céu Azul o lucro que hoje é exportado para outras cidades. A Frutecel exportará as melhores frutas do país, produzirá polpas de vários tipos, usará técnicas avançadas em plantação e irrigação. Quem sabe um dia seremos os melhores neste ramo? – explicou Maria, entusiasmada.

O prefeito levantou–se da cadeira que ficava por trás do birô, andou de um lado para o outro da sala. Parecia pensar em algo. Tinha as mãos no bolso da calça de linho preta. Aproximou–se e olhou–a contagiado com as suas frases.

– Estou convencido, mocinha. Mais uma vez suas palavras me influenciaram. Só continuo exigindo uma coisa: quero alguém da minha confiança na Frutecel.

Maria sorriu com o trunfo. Até que Paulo não precisou ir tão longe para conseguir o que queria. Tudo parecia em ordem. Esperava que Paulo convencesse Chico a retomar o cargo na Frutecel e convenceria–o a contratar alguém do lado do prefeito para compor o resto da diretoria, até mesmo a própria Auxiliadora que se dizia ser uma grande administradora.

A visita à fazenda não foi boa. Os fruticultores estavam nervosos, e não queriam ouvir conversas. Crianças choravam com fome e desnutridas. Armados até os dentes, a comitiva do prefeito foi recebida com tiros. Por sorte tinha levado o delegado e seus dois auxiliares. Pouco apoio, em relação aos mais de cinquenta homens que ali estavam armados, dispostos à violência. O prefeito procurou acalmá–los, mas não obteve êxito. Maria pediu a palavra ao prefeito, que cedeu–lhe sem perguntas.

– Estamos aqui para ajudá–los. Sabemos que sentem fome e cansaço. Suas crianças precisam de alimentos e cobertores. Somos amigos e estamos dispostos a ajudá–los. Devem sair daqui. O prefeito promete estudar a situação de vocês, enquanto isso podemos levá–los para um alojamento improvisado numa escola próxima daqui. Lá terão comida, água e remédios.

Houve um silêncio geral. Alguns homens entreolharam–se de cara fechada. Tinham medo de sair da fazenda e nada daquilo ser cumprido.

– Se sairmos daqui vocês vão nos esquecer. Por quanto tempo poderão nos dá abrigo, alimentos e outras coisas mais que precisamos? Queremos terras para plantar. Garantir o sustento das nossas famílias, levando o pão às nossas mesas todos os dias – gritou um homem de pele bronzeada e chapéu de palha. Segurava um machado e tinha uma voz trêmula.

Quando já estavam quase num acordo chegou o proprietário da fazenda em uma caminhonete com mais de vinte homens bem armados. O clima ficou mais tenso do que antes. De um lado os fruticultores com foices, machados e espingardas. Do outro, homens com rifles e revólveres prontos para atirar. Os homens circundaram o local onde os fruticultores tinham armado suas barracas. Maria implorou ao prefeito que não permitisse nenhum tipo de violência. Mal acabara de falar e ouviu–se um tiro ser disparado, atingindo de raspão o líder do grupo.

O homem foi socorrido no carro do delegado por um dos seus auxiliares. O prefeito pediu calma ao proprietário da fazenda que imediatamente ordenou seus homens a baixarem as armas. Os fruticultores recolheram–se nas barracas, outros dentro dos matos. Ouvia–se choro de crianças espalhadas por todos os cantos.

– Nossos filhos precisam de remédios. Algumas crianças estão doentes. Aceitamos a proposta do prefeito – falou uma voz feminina de dentro de uma das barracas de lona.

Logo depois soube–se que aquela era a esposa do homem baleado. O proprietário da fazenda satisfeito com a ação do prefeito ofereceu seus carros para o transporte dos fruticultores à escola onde seria o alojamento improvisado.

Tinham resolvido metade do problema. As famílias estavam alojadas e recebiam assistência da prefeitura. De volta à cidade, Maria pediu a rádio local que fizesse uma campanha de doação de alimentos, cobertores e medicamentos. O prefeito agradeceu seu gesto, dispensando–a do resto do expediente. Voltou cansada para casa.

Ficou mais ou menos meia hora embaixo do chuveiro quente. Fazia frio, o inverno se aproximava. Vestiu seu robe de cor rosa e enrolou a toalha na cabeça para secar os cabelos molhados. Foi ao armário pegar uma fatia de bolo preto para comer, e observou uma fileira de formigas que iam direto para a vasilha onde estava guardado o bolo. Por mais inseticida que usasse não conseguia expulsá–las de sua casa. Havia uma porção delas. As guloseimas tinham que estar guardadas em vasilhas bem fechadas. Um descuido e elas descobriam o caminho doce. Sua batalha contra as formigas parecia não ter fim. Recusou a fatia de bolo jogando–a na lata do lixo. Olhou para a lata e lembrou–se das crianças famintas que tinha visto pela manhã. Elas não dariam importância se soubessem que as formigas passearam pelo bolo, porque sentiam fome de verdade.

A campainha tocou despertando–a dos seus pensamentos. Era Paulo. Todo contente em vê–la. Deu–lhe um beijo nos lábios dizendo que estava morrendo de saudades.

– Como é bom estar aqui pertinho de você! Parece até que fiquei um século sem vê–la – abraçou–a.

– Bom tê–lo de volta. Tenho ótimas notícias para você! – Maria fitou–o.

– Depois. Quero matar as saudades. Estou com fome e sede de você. Não via a hora de chegar. Deixe–me abraçá–la outra vez.

Paulo desejava–a como nunca. Maria correspondeu as suas carícias, deixando–o tocar todo o seu corpo com as mãos. Ele beijou os lóbulos de suas orelhas, sussurrando palavras e gemidos. Com as mãos acariciava seus seios endurecidos com prazer. Sentiu a adrenalina correr sua espinha à medida que ele descobria uma nova parte do seu corpo com as mãos. Maria levou–o para o quarto. Ele despiu–a, deixando o robe cair, sem nada por baixo Maria gemia de prazer. Ainda vestido Paulo arrancou a roupa do corpo apressado, já que não aguentava mais o desejo de sentir–se dentro dela. Os dois estavam despidos. Maria tomada de desejos percorreu seu corpo com os olhos. A pele vermelha, o corpo peludo… o sexo rosado estava ereto e pronto para invadir–lhe.

– Te amo, princesa! Ah, como te amo! – falou olhando para ela com ternura.

– Quero você. Quero agora. – Maria suplicou–lhe seu amor, implorando que continuasse tocando–a.

Atendendo aos seus pedidos Paulo colocou–a na cama e se colocou sobre ela. Abriu suas coxas e penetrou–a aos poucos. Seu clitóris estava excitadíssimo e sua vulva quente. Naquele momento eram um só. O orgasmo foi quase simultâneo. Paulo gritou de prazer. Maria arranhou as suas costas com as unhas apertando–o contra si. Fizeram amor mais de uma vez. Deliciados e saciados adormeceram profundamente.

Rita voltava para casa, mas ao ver o carro vermelho estacionado à porta, preferiu visitar o namorado mais cedo. Assim daria algum tempo aos outros dois. A felicidade de Maria deixava–a contente.

Paulo acordou primeiro do que ela. Estava exausto da viagem. Dirigira todo o caminho. A estrada não era asfaltada, em muitas partes havia buracos e areia. Olhou, admirado, Maria dormindo ao seu lado. Construir uma família não era seu sonho até o dia que reencontrou–a. Recordou–se de quando jovem. Observava as pernas da menina que passeava de um lado para o outro da casa com uma saia até os joelhos, fazendo seus afazeres domésticos. Era louco para saber o que tinha por baixo daquela longa saia. Maria mexeu–se na cama abrindo os olhos.

– Ai que preguiça. Que hora é essa, meu amor? – perguntou acariciando a perna esquerda do homem ao seu lado com a sua.

– Passa das seis da tarde. Devemos nos levantar. Sua amiga pode chegar a qualquer momento. Já pensou se ela nos pega assim? Sua reputação correria perigo – disse brincando – Vamos, preguiçosa, acorde. Quero que conte–me tudo o que aconteceu na minha ausência.

Quando Paulo falou a hora Maria imediatamente lembrou–se que marcara a entrevista com o editor do Jornal da Manhã para às dezesseis horas e esquecera. Ligaria para ele pedindo desculpas e marcando outro horário.

Maria contou a Paulo sobre o bom humor do prefeito e que definitivamente rendera–se. O vice–prefeito finalmente conseguira fazer alguma coisa boa para a cidade, com a sua contribuição e o telegrama do governo foi fácil convencer o prefeito a chegar a conclusão de que com a sua ajuda ou não a Frutecel reabriria.

Nascia um novo dia em Céu Azul. Seria uma quarta–feira ensolarada e de pouco vento. O sol brilhava intensamente. Alguns curiosos procuravam saber a origem do nome da cidade, e os poucos livros que contavam a sua história revelavam que esse nome devia–se ao fato de no dia da sua fundação a cidade está com um céu muito azul e límpido. Acreditavam que os portugueses perdidos mata adentro, após vários dias de tempestade com fome e sede encontraram naquelas terras frutas e água potável onde conseguiram sobreviver. Tinham enfrentado uma tempestade que escureceu o céu, fazendo–os perder o gado e tudo o que levavam. Quando o céu limpou estavam naquele lugar maravilhoso onde puderam descansar por vários dias. Mas dois deles decidiram não continuar a viagem, queriam ficar ali e descobrir as coisas boas da terra. Esses dois portugueses encontraram um grupo de índios com os quais logo fizeram amizades. Com o passar do tempo fundaram uma cidade que passou a se chamar Céu Azul. Uma pequena cidade que não progrediu e tão logo passou a ser município do estado do Rio Grande do Norte.

Paulo acordou cedo. Sua agenda estava cheia naquele dia. Os primeiros negócios da Frutecel tinham começado, e precisava urgente formar sua diretoria que ajudaria na contratação dos funcionários. Procurou Chico para juntos visitarem a prefeitura e discutir outros assuntos com o prefeito, mas o rapaz surpreendeu–o dizendo que não mais queria o cargo de diretor da Frutecel. Questionado pela decisão Chico negou–se a contar o que tinha levado–o a desistir do cargo. Paulo não insistiu. Se tinha uma coisa que não aceitava era um homem covarde ao seu lado. Aprendera desde cedo a ser forte e determinado. A cidade era pequena poderia encontrar pessoas experientes e qualificadas para os cargos de confiança, seria apenas uma questão de tempo.

A reunião com o prefeito foi longa. Discutiram os mais diversos assuntos.

– Vou ajudar–lhe, Paulo. Afinal aquelas terras estão improdutivas há muito tempo. Temo uma invasão a qualquer momento pelo movimento dos fruticultores sem terras e que os mesmos consigam fazer com que o governo autorize a desapropriação – disse o prefeito acomodado na sua cadeira por trás do birô.

– Tem ocorrido muito esse tipo de movimento. Eles são organizados e decididos. Escolhem o alvo e vão à luta na justiça. É a realidade do nosso país – comentou Paulo com as pernas cruzadas.

– O governador pediu que eu lhe ajudasse no que fosse preciso. Não creio que precise muito de mim, a não ser das minhas terras. Estão em suas mãos. Plante o que quiser – o homem passou as mãos nos cabelos grisalhos.

– Está errado, Prefeito. Estou aqui humildemente para pedir–lhe ajuda. Sei que precisa fazer de Jânio, o seu vice–prefeito, seu sucessor nas próximas eleições, não é isso?

– Se conseguir fazer de Jânio meu sucessor será uma grande vitória. Confio nele, apesar de ser um malandro divertido. Se perdermos, a oposição fará tudo para sujar nossa imagem diante das pessoas, e aí ficará difícil voltar a ter o poder. Você sabe como são essas coisas de política. Não preciso lhe explicar.

– Conheço um pouco. Tenho uma proposta a fazer–lhe – Paulo ajeitou–se na cadeira e continuou – Chico desistiu da diretoria da Frutecel. Preciso urgente de alguém para substituí–lo. Quero que Jânio ocupe o cargo. Sei que é formado em administração de empresas.

– Você é louco?! Jânio mal sabe administrar sua casa. Quando viajo e assume meu lugar, é uma tragédia. Sequer sabe administrar os seus problemas pessoais.

– A ambição muda as pessoas. Aqui na prefeitura seu salário é baixo, o que não o estimula a trabalhar. É um homem de negócios e inteligente. Levantei algumas informações a seu respeito.

– Se ele aceitar, por mim tudo bem. E quem seriam os outros diretores? – interrogou o prefeito.

– O diretor de recursos humanos será Maria. Ela sabe como lidar com as pessoas e tem um bom currículo.

O prefeito levantou–se e ficou em pé a sua frente fitando–o. Por alguns segundos houve um silêncio na sala. Coçou o nariz, alisou a barba e arrumou a gravata.

– Pelo visto você quer fechar a prefeitura. O que é? Enlouqueceu? O vice–prefeito não pode ocupar esse cargo, e a secre… – silenciou–se e depois prosseguiu. – E Maria decidirá o que for melhor para ela. Até agora não ficou claro com qual direção ficarei para colocar a minha pessoa – o prefeito parecia nervoso.

– Nada melhor do que Jânio. Será informado de tudo o que acontecer na Frutecel. Ele continuará vice–prefeito da cidade e terá que visitar a prefeitura todos os dias – Paulo demonstrava tranquilidade.

– Não foi ele quem escolhi. Não quero ele. Essa é uma escolha sua – o prefeito falou, aborrecido.

– Afinal o senhor quer ou não quer eleger o seu candidato? – Paulo o interrompeu – Esquece que uma vez na diretoria da Frutecel, a empresa gerando empregos e trazendo lucros à cidade, Jânio poderá se tornar popular e ganhar votos com isso?

O prefeito analisou as palavras de Paulo e acabou concordando com ele. Imediatamente veio uma ideia à sua cabeça. Se Jânio se tornaria popular com o sucesso da Frutecel aquilo era uma dúvida, mas tinha certeza que Paulo já era o maior sucesso da cidade. E se ele saísse candidato pelo seu partido? Daria a Jânio o cargo de diretor em troca da candidatura de Paulo.

Desconfiado do silêncio do prefeito Paulo levantou–se parecendo inquieto. Com as mãos nos bolsos esperava a próxima proposta do homem.

– Quero que seja meu candidato nas próximas eleições.

A frase saiu rápida e certa. Era tudo o que Paulo queria. Ser convidado para concorrer às eleições. Surpreso não tinha imaginado que seu plano pudesse rapidamente influir na decisão do prefeito. Bastava Jânio aceitar o convite. Como era ambicioso e louco por dinheiro isso seria o mais simples. Se ganhasse as eleições a cidade seria sua, sem empecilhos para continuar seu projeto tão sonhado.

À tarde deu entrevista no Jornal da Manhã, falando da Frutecel e o que tinha em planos para o futuro. O jornalista perguntou–lhe o motivo pelo qual tinha escolhido Céu Azul para um projeto tão ousado quanto aquele. Sua resposta foi aplaudida por muitos:  – Céu Azul tem um dos melhores climas e terra para qualquer tipo de plantação.

O dia passou rápido. De volta ao hotel Paulo lembrou–se de que não ligou nenhuma vez para Maria. Os compromissos do dia deixaram–no ocupado o tempo todo. Sentia–se exausto. Tomava seu banho esfregando o sabonete no corpo bronzeado. Recordou–se da tarde passada nos braços de Maria. Era uma mulher incrível. Sua vingança poderia custar caro, estava se apaixonando por ela. Nenhuma outra mulher deixara–o tão louco de desejos quanto ela. Juntos perdia a razão e a alma masculina enlouquecida de paixão entregava–se as carícias daquela mulher. De repente ouviu uma voz próxima chamando–o. Achando que era um sonho viu Maria abrir a porta do banheiro.

– Pensei que tivesse acontecido alguma coisa com você. Não me deu notícias o dia inteiro. Fiquei preocupada – Maria estava encostada à porta com os braços cruzados.

– Estou bem, Princesa. Estive ocupado o dia todo. Espere um pouco. Estou terminando – Paulo gritou do boxe.

Maria podia ver a sombra do seu corpo pelo vidro do boxe. Ficou fitando–o silenciosa. Paulo percebeu que ela ainda estava ali e devagarinho abriu a porta de vidro do boxe.

– Deseja tomar banho comigo? – perguntou deixando o corpo ensaboado à mostra.

Maria, envergonhada, fechou a porta, apressada. Ele sorriu. Achou engraçado a sua timidez. Enrolou–se na toalha branca e foi para o quarto.

– Janta comigo, princesa? – perguntou beijando–a nos lábios.

– Não posso. Tenho aula. A faculdade é importante para mim, Paulo. É o maior tesouro de um jovem estudante de família humilde.

– É o tesouro de todos os jovens. Uma formatura é o maior presente que podemos nos dar. Lembro–me da felicidade que dei a minha família no dia da minha colação. Um engenheiro agrônomo para cuidar dos negócios de papai, e aqui estou eu, cuidando dos meus próprios negócios. Imagino que deve comer alguma coisa antes de ir à aula, não?

– Sim. Faço um lanche apressado. O tempo é tão curto – Maria olhava–o vestir a roupa.

– Hoje você vai jantar comigo, depois a deixarei na faculdade. Quero minha noiva com saúde e muito bonita – abraçou–a, carinhosamente.

Paulo pediu uma refeição rápida. Logo após deixou–a na faculdade como havia prometido. Admirava o esforço de Maria pelos estudos e pela vida. Devia ter aprendido muito depois da morte dos pais. Era uma situação difícil enfrentar a vida sozinha.

A entrevista de Paulo ao Jornal da Manhã foi um sucesso. Ouviam–se os comentários das pessoas nas ruas, nos bares, nos restaurantes e nas escolas. Até mesmo Maria foi surpreendida por um dos professores elogiando as ideias do seu noivo. Paulo ganhou a confiança de todos. Não faltava mais nada para reabrir a Frutecel. Os novos equipamentos, as máquinas, o adubo, as sementes, já estavam a caminho. Maria foi pega de surpresa quando ele convidou–a para ser diretora do departamento de recursos humanos. Primeiro achou que Paulo estava brincando depois quando quase acreditou achou que ele devia saber da sua inexperiência naquela área, devia ser bem difícil conviver com várias pessoas, cada uma com pensamentos diferentes, não tinha nenhum método em selecionar empregados, fazer entrevistas. Embora tendo alegado tudo isso para ele não teve escolha, o cargo era seu. Desde criança quando era encarregada de uma tarefa, se não soubesse executá–la com perfeição procurava uma forma de aprendê–la o mais rápido possível. O hábito não mudara. Como Paulo fingia–se de desentendido e não aceitava sua recusa ao cargo, não teve outra escolha senão recorrer aos livros. Maria estudou dia e noite sobre relações humanas no trabalho, convívio diário com vários tipos de pessoas, autocontrole, inteligência emocional, ética e postura profissional, dentre outros temas ligados ao cargo que em breve ocuparia.

Jânio também aceitou o convite. Paulo combinou com o prefeito pagar um salário altíssimo a ele, com isso não teria como recusar o cargo e nem faria questão para disputar as eleições, deixando de lado a sua candidatura.

O regimento interno da Frutecel exigia quatro diretores: o presidente, o administrativo–financeiro, o técnico, o de pessoal. Paulo encontrou um engenheiro pesquisador da Universidade Regional de Céu Azul que tinha técnicas de plantação e cultivo de frutas tropicais e estava interessado no desenvolvimento da empresa. O entusiasmo do homem era tanto que não teve dúvidas quanto a sua vocação profissional, convidou–o para compor o quadro de diretor. Com a diretoria formada, as máquinas instaladas, e as sementes prontas para serem plantadas, bastava selecionar a mão–de–obra.

– Devemos selecionar setecentos empregados. Quero pessoas preparadas para o trabalho. Minha maior exigência será vontade para trabalhar – falou Paulo às demais pessoas sentadas à mesa.

Era uma reunião da diretoria. A primeira da Frutecel após a sua reabertura. Compareceram naquele dia os três diretores e o prefeito da cidade.

– Fiz um estudo sobre seleção de pessoal e gostaria de apresentá–lo para aprovação dos senhores – Maria tinha uma pasta com papéis.

Paulo pediu que ficasse de pé e mostrasse a todos que sugestão tinha sobre o assunto em pauta. Ela sugeriu um organograma dividido em dois níveis: o técnico e o administrativo. A mão–de–obra mais difícil era a que trabalharia com a terra e a semente, gente de pouca instrução. Paulo já tinha fechado contrato com alguns fruticultores, suas colheitas seriam todas para a Frutecel naquele ano. Foi decidido que esses fruticultores teriam seus próprios empregados que não teriam nenhum vínculo com a empresa. No período da plantação e da colheita receberiam seus salários conforme estipulado pelos seus patrões. Os funcionários da Frutecel trabalhariam oito horas por dia, com intervalo de duas horas para o almoço. Dispunham de três grandes armazéns e dois depósitos onde as frutas selecionadas e prontas para o consumo ficariam estocadas. A qualidade nos serviços estaria em primeiro lugar. O cuidado na seleção das frutas e na embalagem seria o máximo, principalmente naquelas que seriam exportadas.

– Caio, use tudo o que sabe para fazer das nossas frutas as melhores do mundo. Essa responsabilidade é sua. Verifique as técnicas do pessoal na hora da colheita para que não haja prejuízo e estrago das frutas. Também veja com os bioquímicos a melhor forma para fazer das nossas polpas de frutas as melhores do mundo – falou Paulo para Caio, o engenheiro e diretor técnico da Frutecel.

– Cuidarei de tudo, Paulo. Treinarei meu pessoal no que for preciso. Estou fazendo um estudo sobre as pragas que acabam com as plantações para que não sejamos pegos de surpresa.

– Isso é interessante. Devemos nos preocupar também com o tipo de adubo que usaremos para fortificar a terra.

O prefeito escutava tudo com atenção e calado. Não disse uma palavra sequer. Ninguém sabia qual era a sua opinião sobre o que tinham discutido na reunião, pois após o término saiu apressado. Paulo achou que tinha concordado com tudo, já que não fez nenhum comentário. Suas terras eram férteis, isso era o que importava para todos. Os outros se retiraram aos poucos. Maria arrumava suas coisas quando Paulo voltou à sala.

– O prefeito está preocupado com as famílias que estão alojadas na escola. Não sabe o que fazer para resolver a situação delas. Todos sabemos que não há lugar para ficarem. A justiça anda devagar, é pouco provável que consigam aquelas terras. A situação pode ficar bem complicada.

– Devem esperar pela justiça. Se as terras forem consideradas improdutivas cada família ganhará sua parte. Creio que deveriam voltar para as suas casas.

– Não seja tolo, Paulo. Elas não têm casas. Suas casas são aquelas cabanas feitas de lona – Maria parecia triste.

– Esse é um movimento que vem crescendo a cada ano, Maria. Essas pessoas são organizadas. Elas sabem o que fazem. Não sou contra e nem a favor, porém recuso–me a acreditar que todas aquelas pessoas ali não tenham onde morar. Muita gente tira proveito com isso, esse país é assim – Paulo acariciou os cabelos dela.

– São seres humanos, Paulo. Querem trabalhar, comer, um lugar para morar. Apenas isso – Maria afastou–se dele.

– Calma, princesa! Não quis machucá–la. Disse apenas o que penso sobre tudo isso. Se está preocupada com eles vá até lá e ajude–os. Faça o que acha que deve fazer.

Paulo foi à janela e ficou fitando o pátio da empresa. Viu alguns homens descarregarem dois caminhões de adubos que tinham acabado de chegar.

– Essa gente invadiu as terras do meu pai e acabou matando o nosso melhor empregado. Você ainda os chama de coitadinhos? – perguntou Paulo de costas para ela.

– Talvez o seu pai tenha os tratado como bichos – respondeu Maria com a voz firme.

– Eu não vou discutir com você sobre isso, Maria. Faça o que quiser com esse povo.

– Sabe que não posso fazer nada para ajudá–los. Infelizmente não tenho o que querem – comentou em voz baixa.

– Essa é uma questão política, Maria. Não se envolva com esses problemas – Paulo aproximou–se e abraçou–a – Pense mais em você. Gostei da apresentação do seu trabalho na reunião. Muito bom!

– Estou fazendo o que posso para tudo dar certo. Não sei se vou conseguir. Nunca gostei de trabalhar diretamente com pessoas. Às vezes é muito melhor você controlar dez máquinas do que cinco homens.

Maria voltou para casa com Paulo. Já era tarde e tinha que ir à faculdade. Ao entrar em casa viu Rita chorando, cabisbaixa.

– O que aconteceu? Por que chora? – Maria perguntou, espantada.

Rita não respondeu. Parecia nervosa demais. Maria foi à cozinha e pegou um copo com água na geladeira. Fez beber toda a água do copo. Ficou parada em frente a amiga, intrigada com as lágrimas que não paravam de cair dos olhos dela.

– Rita, não me deixe nessa aflição. Por que chora tanto? – ajoelhou–se próximo dela.

– Chico acabou o nosso namoro. Assim sem mais menos, ele acabou sem me explicar uma palavra – lamentou–se, desesperada.

Maria acalmou–a com as palavras de carinho que lhe vieram à mente. Também foi uma surpresa para ela a atitude de Chico. Ele demonstrava estar tão apaixonado quanto Rita, era estranho que tivesse acabado um namoro de mais de dois anos assim tão rapidamente e sem motivos. Preparou um chá para a amiga, e levou–a para o quarto.

– Deite–se e procure dormir. Tente não pensar no que aconteceu – Maria cobriu a jovem com um cobertor e apagou a luz do quarto.

Sentada na sala achou melhor não ir à aula naquela noite. Não seria bom deixar Rita sozinha. Ela podia precisar da sua ajuda. Estava amando Chico e ambos pensavam até em casamento, Maria não conseguia entender o que tinha acontecido com ele. Devia haver um motivo muito forte por trás daquilo tudo. Primeiro a recusa do cargo de diretor da Frutecel, agora o fim do namoro com Rita. Telefonou para Paulo e pediu–lhe para passar lá assim que pudesse.

Maria entrou no quarto de Rita várias vezes para ver como ela estava, sempre a mesma cena, o olhar distante e silenciosa. A campainha tocou, logo foi atender para não fazer barulho.

– Boa noite, Princesa! Pensei que estivesse na faculdade – disse Paulo beijando seu rosto.

– Não pude ir. Quando cheguei em casa hoje à tarde Rita chorava bastante. Chico acabou o namoro. Pobre, Rita! Estava tão apaixonada por ele!

Paulo sentou–se na poltrona convidando–a sentar–se ao seu lado. Vestia uma camisa de mangas curtas amarela e uma calça jeans preta.

– Pensei que estavam se preparando para casar. Por que ele acabou? – Paulo perguntou.

– Nem ela sabe. Você não achou estranho o comportamento de Chico nos últimos dias, Paulo?

– Não. Quando recusou o cargo que lhe dei na Frutecel sem maiores detalhes, achei apenas que era um rapaz muito aventureiro. Ele gosta daquele teatro de mamulengos, pensei que quisesse continuar trabalhando com isso. Logo não insisti. Creio que seus pais estão por trás de tudo.

– Rita está tão tristonha! Não jantou. Espero que acorde melhor amanhã. Não sei como consolá–la – Maria brincava com os botões da camisa dele.

– Trouxe algo para você. Esqueci de comprar–lhe antes. É tanta coisa para resolver que esqueço das mais importantes – Paulo deu–lhe uma caixinha preta pequena – Talvez não seja uma boa hora, mas não quero você desfilando por aí sem uma aliança na mão.

Maria abriu a caixinha. Dentro estava um par de alianças em ouro. As alianças traziam os seus nomes.

– Quero oficializar nosso noivado. Sei que não é um bom momento, mas não posso adiá–lo. De repente pode aparecer um espertinho por aí – colocou o anel vagarosamente no dedo fino e delicado da mão direita dela.

– Quando casaremos? – perguntou, curiosa.

– Você escolhe a data. Desde que seja em breve. Tenho me sentido muito só nos últimos dias.