Danda Trajano

Para além do verde

Capítulo V

Maria viajou mais de nove horas entre escalas e conexões até chegar ao aeroporto de Natal. Depois, enfrentou mais três horas de ônibus da capital para Céu Azul. Parte da estrada não era asfaltada e por isso a viagem se tornava mais cansativa ainda.

Quando chegou à cidade, Rita, sua amiga estava na rodoviária a sua espera.

– Seja bem–vinda, minha amiga! Saudades! Parece até que não nos vemos há anos – disse Rita abraçando–a – Desde que nos conhecemos nunca ficamos distante uma da outra mais de um dia.

– Oh, Rita! Estou feliz por estar de volta a minha terrinha. Feliz por pisar novamente neste solo fértil e respirar este ar puro. Senti tantas saudades de tudo isso. É engraçado como as coisas são, por mais importante que sejam para nós, só percebemos seu valor verdadeiro quando as perdemos ou nos distanciamos delas – disse Maria olhando o vai e vem das pessoas na rodoviária lotada.

– Onde está, Paulo? Não veio com você?

– Não, Rita. Sobre ele há uma longa história para lhe contar. Mas não agora. Tudo o que quero é paz, poder ir para minha casa e descansar bastante. Estou enfadada.

Rita sentiu a pontinha de tristeza que saía dos olhos azuis da amiga. Não quis fazer mais nenhuma pergunta, achou melhor deixar–lhe à vontade.

Uma vez em casa, Maria aproveitou para tomar um bom banho e dormir um pouco. Rita preparou algo para ela comer quando acordasse.

– Como está se sentindo agora? Pensei que fosse dormir a tarde inteira – comentou Rita que estava na pia da cozinha.

– Que horas são? Hum! Que cheirinho bom de café! O que está preparando? – perguntou Maria se espreguiçando.

– Uma canja de galinha e uma tapioca com coco. Que tal? Espero que nesses poucos dias você não tenha se acostumado com a mordomia da casa do seu esposo – brincou Rita.

– Sabe que não sou desse tipo, Rita. Mas falando assim você me fez lembrar da senhora Ceiça, a governanta da casa dos pais de Paulo. Uma pessoa maravilhosa.

– Quer falar agora no que aconteceu ou quer deixar para outra hora?

– Quero que me fale sobre a Frutecel. Esses dias distante muita coisa deve ter acontecido por aqui. Como vai o pomar dos Souzas que estava com a praga da Antracnose.

– Caio consultou um agrônomo amigo dele que recomendou uma pulverização com um produto muito bom. Creio que não perdemos todos os cajus dessa safra, mas não servem para exportação.

– Exportação?! No que está falando, menina? – exclamou Maria, surpresa.

– Isso mesmo. Fizemos contato com alguns empresários da Argentina que pediram para que enviássemos algumas amostras de nossas frutas para eles. Selecionamos o melão, a melancia, a laranja e a acerola, por enquanto.

– Que ótimo, Rita! Quer dizer que o reconhecimento da Frutecel está voltando à praça. Poderemos voltar a exportar as nossas frutas!

– Bons ventos andam soprando por aqui, Maria. E enquanto estive em seu lugar, com a encomenda da exportação das frutas decidi treinar um grupo de oitenta pessoas para embalagem com qualidade. As frutas devem ser embaladas com o máximo de cuidado possível. Devem chegar ao destino tão belas quanto saírem daqui. Caio está treinando um pessoal no controle de qualidade para seleção das frutas no que diz respeito a tamanho, cor e outros detalhes. Sem falar nos rótulos coloridos que estamos preparando para colocar nas caixas das frutas com o nome e endereço da Frutecel.

– Estou orgulhosa de vocês. Em oito dias vocês fizeram tudo isso. Meu Deus, se passo mais um mês o que não teria acontecido por aqui?! – Maria parecia mais alegre.

– Espero que possa fazer uma visita amanhã à Frutecel. Estamos precisando que assine uns documentos liberando um projeto de Caio para a irrigação de alguns pomares e a distribuição de sementes para alguns fruticultores.

– Claro que sim. Amanhã bem cedo estarei na empresa, não tenha dúvidas disso – Maria puxou uma cadeira da mesa e sentou–se de frente para a amiga que fazia o café – Gostaria de pedir–lhe algo, Rita?

– Gostaria que dormisse esta noite aqui em casa. Preciso de alguém ao meu lado. Aconteceu tanta coisa nesses últimos dias, amiga. Andaram me magoando bastante. A ferida está aberta e doendo muito – Maria começou a chorar.

Rita chegou mais perto e procurou acalmá–la. Ofereceu–lhe um café quente, enquanto lhe falava palavras de carinho.

– Eu não acredito que o Padre José esteja envolvido nesta mentira, Maria! Ele não poderia fazer isso com você! – Rita surpreendeu–se com a história que Maria lhe contou.

– E Pedro, o que disse de tudo isso? Como reagiu quando lhe viu? Como ele está?

– Pedro está bem. Foi a melhor parte dessa história. Paulo mentiu para mim quando disse que ele estava casado. Pedro é viúvo e tem uma filha que é adorável. Conversamos um pouco e acabamos descobrindo que ainda somos apaixonados um pelo outro como há vinte anos.

– E por que não fica com você? O que impede que fiquem juntos, Maria? Não há motivos para sofrimento, minha amiga. O homem que ama está livre e diz ser todo seu.

– Ele escondeu de mim que Paulo era casado. Escutei uma conversa dos dois aonde Pedro jurava não se envolver na nossa relação se Paulo prometesse cuidar da esposa. Ele aceitou a mentira do irmão, e me fez duvidar que não me amava tanto quanto eu imaginava.

– Creio que ele só queria seu bem, Maria. Se pedir–lhe uma chance você deve dar. Já provou que a ama indo até o aeroporto e se declarando pessoalmente, como disse você mesma ainda há pouco.

– Não é fácil, Rita. Me senti traída por Pedro. E isso está doendo aqui dentro – disse Maria colocando a mão no peito esquerdo.

– E o que fará com Paulo quando ele voltar à cidade? – perguntou Rita servindo–lhe uma xícara de café.

– Conversaremos. Terei esfriado a cabeça e ele também. Não se preocupe com a Frutecel, ela não vai fechar mais. Talvez ele venda para outra pessoa, o que espero que ele não faça.

Anoiteceu rápido em Céu Azul naquela tarde de inverno. Mesmo com pouca chuva o frio era forte, porque ventava bastante.

Maria teve a companhia da amiga que dormiu na sua casa naquela noite. Conversaram durante horas, e só foram dormir bem tarde.

Ao se recolher no seu quarto Maria lembrou–se de Pedro no aeroporto. Vestido num casaco marrom de frio, as mãos com luva, os cabelos desalinhados e um rosto extremamente tristonho. Se pelo menos ele ligasse ou escrevesse para ela. Seria bom ter notícias dele, saber o que fazia, saber de Alice, enfim ele podia entrar em contato com ela se quisesse. Dessa vez não tinha fugido e com ele ficara seu endereço e sua história.

Acordou como de costume cedo. Às seis horas estava preparando o café da manhã para ela e Rita que continuava dormindo.

Olhou para os móveis na sua casa, e passou a mão pelo belo armário branco que tinha na cozinha. Foi à janela e olhou para baixo, onde podia ver os fundos da casa com a piscina e o jardim. Durante toda a sua vida em Céu Azul seu caminho obrigava–a passar em frente aquela casa. E a amou desde a primeira vez que a viu. Hoje orgulhava–se de ser sua proprietária, presente de Paulo que talvez quisesse de volta. Não teria dinheiro para comprá–la dele. Seus compartimentos eram grandes e bem decorados. Tinha cinco quartos todos com suíte, mais duas dependências de empregada, sala de jantar, de visita, salão de jogos, escritório e muitas outras dependências. Recordou–se de um dia na sua adolescência quando seus pais eram vivos e passavam em frente a casa. Comentou com a sua mãe que um dia moraria ali. Sua mãe sorriu acariciando sua cabeça e lhe dizendo que querer é poder. Aprendeu boas coisas com a sua mãe, ela sempre trazia velhos ditados populares consigo para ressaltar uma frase ou outra.

– Bom dia, Maria! Perdoe–me pelo sono. Acho que dormi demais. Aqui é tão confortável que não dá nem vontade de sair da cama.

– Por que não vem morar comigo? Não quero viver só nesse casarão. – Maria falou tranquila.

Preparava a mesa para servir o café da manhã. Enquanto Rita ajudava com as torradas.

– E quando Paulo voltar? – interrogou Rita, curiosa.

– Ele não voltará para esta casa. Há um bom hotel na cidade, Rita. E se insistir em ficar aqui será apenas por uma visita.

– O que vai dizer ao povo sobre vocês? Um casamento não se acaba assim de uma hora para outra.

– Ao povo não sei ainda, nem estou preocupada, mas ao Padre José sei muito bem o que vou dizer – estava séria outra vez.

– Cuidado, Maria. É pecado brigar com padres. Veja lá o que você vai fazer com ele.

– Sente–se e coma. Sei o que estou fazendo. E vê se come rápido, porque estou louca para chegar à Frutecel.

A reunião estava marcada para às nove horas, porém começou um pouco mais tarde devido o atraso do prefeito por trinta minutos. Maria iniciou a reunião agradecendo o empenho de todo o pessoal enquanto ela e Paulo estiveram ausentes, depois pediu que cada um falasse da sua administração.

– Estou mantendo contatos com grandes redes de supermercados no sul e sudeste do país para comercializamos nossas frutas e polpas. Também venho mantendo contato com a sudene sobre um projeto de Caio para verificar a possibilidade de exportação das nossas frutas in natura – Jânio falou satisfeito.

Todos estavam sentados em uma mesa retangular de vidro escuro. Na sala apenas cinco pessoas: o prefeito, Rita, Caio, Jânio e Maria.

Em seguida Caio, o engenheiro agrônomo, prosseguiu a reunião falando sobre o seu trabalho.

– O presidente da cooperativa dos fruticultores pediu desculpas por não poder comparecer à reunião, alegou que tinha um compromisso para esta manhã. Quanto a Frutecel tenho feito o possível para obtermos êxito. Estou envolvido com alguns fruticultores no controle das pragas e doenças que afetam os pomares, e passado algumas informações importantes através da cooperativa por boletins e panfletos – comentou ele.

– E quais as pragas e doenças que mais afetam os pomares? – perguntou Maria, curiosa.

– Depende do fruto. Quanto ao caju estamos combatendo no momento a antracnose com pulverização de oxicloreto de cobre. O pomar mais atingido é o dos Souzas. Eles são novos no ramo da fruticultura e creio que perderam toda a safra de caju deste ano.

– Ouvi falar que alguns pomares de goiabeiras e mangueiras também estão com pragas – disse Rita que estava sentada a direita de Maria e a esquerda do prefeito.

– Sim. Isso acontece com a citricultura. São as moscas–das–frutas. Muito conhecidas dos citricultores. Já temos pessoas preparadas para resolver esse problema. O monitoramento é a principal prevenção, é uma prática valiosa, pois indica o momento em que deve ser iniciado o controle. Para isto utilizam–se armadilhas ou frascos caça–moscas – explicou Caio.

– E por que não fazemos o controle químico? – perguntou o prefeito – É menos trabalhoso, rapaz.

– Pensamos nisso, mas esse método não é muito recomendado. Há críticas quanto ao uso de iscas envenenadas porque provocam a morte de grande número de insetos úteis. Devemos ter cuidado principalmente com a goiaba, a manga, o caju e a carambola, elas são hospedeiras preferidas das moscas–de–frutas. Nunca deixar as frutas apodrecerem sob a copa das árvores e os frutos caídos devem ser recolhidos e enterrados – respondeu Caio.

– Quero que passe tudo isso para os fruticultores e citricultores da região, Caio. Está um trabalho muito bem feito, mas temos que pôr em prática. Sei as exigências do mercado exportador. A qualidade deve estar em primeiro lugar – falou Maria empolgada com a equipe.

– É difícil passar tudo isso para eles, mas vou procurar uma maneira fácil de explicar–lhe com detalhes. Alguns são rudes no assunto. Devemos convencê–los a cuidar bem dos seus pomares. A Frutecel só receberá frutas com boa apresentação no mercado – esclareceu Caio.

– Quero números. Quantidade de mão–de–obra, fruticultores, citricultores, pomares. Tipos e quantidade de frutas que poderemos colher em breve. Quem pode me dizer alguma coisa? – perguntou Maria.

Caio novamente começou a falar, era o mais empolgado de todos. E também o mais informado.

– Estamos com oitocentos funcionários. Entre fruticultores e citricultores temos quarenta pessoas e os pomares em maior quantidade são os de caju, manga, melão e melancia. Essas são as informações que posso dar no momento.

– Ok, Caio. Parabéns pelo trabalho – Maria cumprimentou o homem com um aperto de mão – Já que estamos todos com as informações que necessitamos para continuar nossos serviços vou agora lhes falar sobre Paulo. Talvez ele só possa voltar daqui a uns dois meses. Sua mãe está doente, e há negócios pendentes da família para serem resolvidos por ele.

– E a direção presidencial? Quem vai assumir enquanto Paulo estiver ausente? – perguntou o prefeito, inquieto.

– Eu. Já assumi desde o início da reunião. Manterei contato com Paulo pelo telefone todos os dias, qualquer problema ele ficará informado.

– O estatuto da Frutecel não diz que na ausência do presidente sua esposa deverá assumir, Maria – disse o prefeito em voz alta.

Todos entreolharam–se interrogativos. Estava para começar uma batalha. O homem pegou Maria de surpresa. De fato errara em não ler o estatuto da Frutecel. Errara também assumindo o cargo de Paulo sem pedir a opinião dos outros diretores, mas sua intenção era a melhor de todas.

– Ouvi tudo em silêncio, pessoal. Agora chegou a minha vez de falar – o prefeito levantou–se da cadeira e olhou para todos os presentes na sala – Sou sócio da Frutecel juntamente com o esposo de Maria, o senhor Paulo, e como dizem as normas do estatuto na sua ausência eu assumo a presidência. Todos vocês devem ter lido o estatuto, não?

Houve comentários rápidos pela sala. Alguns se entreolharam curiosos. Ninguém esperava aquela reação do prefeito. Ele não podia assumir o cargo de presidente e abandonar a prefeitura. Só podia estar brincando, pensou Maria.

– Espere um pouco, prefeito. Tudo bem que o estatuto diga isso. Está correto. Mas o senhor é o prefeito da cidade, não pode assumir a presidência da Frutecel e abandonar a prefeitura – Maria comentou, apressada.

– Sei que não. Por isso Jânio voltará para a prefeitura, assumirá meu lugar interinamente. Auxiliadora assumirá o lugar dele. A partir desse momento passo a ser o diretor–presidente da Frutecel, espero a compreensão de todos vocês – Falou satisfeito o prefeito.

– Essa não, prefeito. Eu sou o diretor–administrativo da Frutecel não pedi para largar meu cargo. Não vou voltar para a prefeitura coisa nenhuma. Esse cargo é meu. E vou permanecer nele – Jânio estava bravo.

– Ninguém está tomando seu cargo. Você vai assumir a prefeitura por alguns dias, seu besta. Até o senhor Paulo está de volta. O que desejamos que não custe tanto – o prefeito olhou para Maria.

– E se ele não voltar? – perguntou Jânio – Como vai ficar a Frutecel?

– Essa é uma pergunta que você deve fazer a esposa dele, Jânio. Creio que o senhor Paulo não seria louco o suficiente para abandonar uma mulher bela como a Maria e os milhões investidos nesta empresa – o prefeito jogou um olhar curioso para o corpo de Maria.

Maria arrumou seus papéis na pasta, ajeitou seus cabelos e fitou o prefeito por algum tempo.

– Dessa vez o senhor venceu. Mas uma coisa vou lhe alertar: estarei de olho nos seus passos. A Frutecel está crescendo e não vai fechar como da outra vez.

– Vamos, Maria. Precisamos trabalhar. Quero que acompanhe o treinamento que estou dando ao pessoal – chamou Rita na tentativa de evitar o conflito da amiga com o prefeito.

As duas saíram da sala deixando os três homens em silêncio. Pelo visto ninguém gostou da decisão do prefeito, mas nada podiam fazer uma vez que ele obedecia ao estatuto.

Com a Frutecel nas mãos do prefeito há três meses, a prefeitura sob a administração de Jânio e Paulo sem dá notícias as coisas não iam nada bem em Céu Azul.

Maria desconfiava que o prefeito tinha pensamentos de fechar novamente a empresa, uma vez que ele não queria o progresso imediato da cidade. Com o progresso as pessoas ficariam mais esclarecidas, a cidade cresceria economicamente, e abriria portas para outros ramos de negócios, coisa que o assustava. Ela era a pessoa que mais sabia sobre os desvios das verbas que o prefeito fazia para seu próprio bolso, e ele temia que alguém soubesse daquilo.

Auxiliadora vivia falando que a Frutecel estava perdendo a concorrência com o mercado externo, pois outras empresas mais antigas estavam dominando o comércio da fruticultura, o que Maria não acreditava.

As pessoas começavam a questioná-la pelo seu marido, da sua volta à cidade e ela começava a ficar sem respostas. Já fazia três meses que tinha voltado do Paraná e nem notícias de Paulo. Vivia dizendo às pessoas que ele resolvia os problemas da herança da família e estava atarefado demais para voltar. Mas, não sabia até quando poderia segurar a mentira.

Acertou as contas com o Padre José que jurou não saber sobre a falsa certidão de nascimento de Paulo, e muito menos que tinha recebido dinheiro dele para a reforma da igreja. Maria exigiu que fizesse bom uso do dinheiro sujo que recebeu para realizar o casamento falso, e ajudasse as pessoas necessitadas da cidade. Ele prometeu-lhe que faria mais pelo povo, no fundo estava envergonhado do que fizera.

Era uma tarde de sexta-feira, tinha chegado em casa mais cedo e estava  preparando um café quando o telefone tocou.

– Pedro! Como é bom ouvir a sua voz! Como está você, querido? Estou morrendo de saudades! – falou emocionada.

Maria agarrou-se ao aparelho telefônico como se estivesse agarrando o homem do outro lado da linha. Pedro disse que ligou para saber como ela estava e que Paulo cuidava da recuperação de Sônia. Ele foi rápido. Não falou sobre eles. Foi discreto demais. Deixou escapulir a palavra saudades, mas ela sentiu que sua voz estava trêmula e nervosa. Quando desligou, ela ficou no sofá sentada com o aparelho na mão olhando um quadro onde havia a figura de uma criança pescando sentada sobre uma pedra e um belo mar à sua frente, pendurado na sala de visitas. O pensamento estava longe, e só o corpo se fazia presente na casa naquele momento. Por que ele ligara? Por que não falara sobre eles? Por que foi tão frio? Sabia que o casamento dela com Paulo tinha acabado, pelo menos era o que imaginava.

– Boa noite! Tenho uma notícia para lhe dar. Ainda bem que está sentada! É uma bomba! – Rita entrou de repente, assustada.

– O que aconteceu? Por que está com essa cara de espanto? Vamos me conte logo – perguntou Maria despertando dos seus pensamentos.

– Paulo ligou para a Frutecel e falou com o prefeito. Ele vendeu sua parte na empresa a um amigo.

Maria não acreditou no que ouviu. Como ele tinha vendido a Frutecel a outra pessoa, sem consultá-la. Por que teria feito aquilo se sonhara tanto com o crescimento da empresa através da sua administração. Será que até naquilo Paulo tinha mentido?

– Não se surpreenda, Maria. Você devia imaginar que Paulo faria isso qualquer hora. Ele não tem mais nada o que fazer aqui. Ou você ainda o aceitaria como esposo?

– Não estou surpresa. Apenas tristonha. Pensei que ele gostasse da empresa. Não precisava ter vendido só porque nosso casamento acabou – lamentou-se.

– Tem razão. Talvez ele queira cuidar melhor da esposa. E a herança que vai receber deve ser boa o bastante para se preocupar com Céu Azul.

– Por que ele não ligou para mim? Quem o atendeu na empresa?

– Eu atendi. Ele perguntou por você antes de falar com o prefeito, mas não estava. Passaram algum tempo conversando, creio que ele disse ao prefeito que também não vai mais se candidatar. Está abandonando tudo, Maria.

– Melhor assim. Eu vou ter que arranjar outra história para contar às pessoas da nossa separação. Elas não param de perguntar por ele.

– Pois invente logo esta história. O novo proprietário deve estar chegando amanhã. O prefeito quer que deixemos tudo organizado até lá. Pediu para que chegássemos mais cedo pela manhã.

– Espero que seja uma pessoa gentil e de bom senso – disse Maria curiosa por conhecer o novo proprietário da Frutecel.

Rita preparou um jantar leve. Maria tomou um banho quente demorado, enquanto lembrava-se do telefonema de Pedro. Depois do jantar Rita recebeu Caio, seu namorado. E Maria ficou em seu quarto lendo seu livro de poesias de Auta de Souza, sua poetisa predileta.

O dia amanheceu ensolarado em Céu Azul naquela manhã de sábado. Cedinho podia-se ouvir o grito do entregador de jornal, ver as pessoas caminharem apressadas de um lado para o outro da cidade, e os carros que transportavam as frutas roncarem seus motores no meio da praça. Maria acordou com o telefone tocando. Antes de atender olhou para o relógio no criado mudo, e percebeu que já passava das oito. Atendeu o telefone apressada.

– Olá, Maria! Aqui quem vos fala é seu marido, aliás seu ex-marido para ser bem claro. Como vai você? – perguntou Paulo, ironicamente.

– Estou bem. O que você quer? Já sei que vendeu a Frutecel – falou, aborrecida.

– A Frutecel está nas mãos de uma pessoa experiente e muito boa. Não se preocupe com isso. Logo, logo estará conhecendo-o. Não sei quando poderei voltar à Céu Azul, mas ligarei sempre para saber como estão as coisas, caso queira. Sei que ainda está muito magoada comigo, espero que passe rápido. Gosto muito de você, Maria. Estou cuidando de Sônia, como pediu meu irmão. Mas meu amor pertence a você. Pena que não sinta o mesmo por mim.

– Estou atrasada para o trabalho, Paulo. Não tenho muito tempo para conversar. Você ainda tem alguma coisa para me dizer?

– Sim, tenho. Seu novo patrão é uma pessoa maravilhosa. Sei que vocês vão se entender muito bem. Bonita como é, duvido que ele não se apaixone por você. Tenha um bom dia, princesa.

Paulo desligou. Maria sorriu. Ele era um tolo. Ligar aquela hora para falar bobagens.

Levantou-se e foi até a janela olhar o dia lá fora. Estava lindo. O sol brilhava intensamente, e podia sentir o aroma das flores chegar ao seu nariz. Observou um beija-flor que voava sobre as flores do jardim, se alimentando, era frágil como ela.

Acordou Rita para tomarem o café e seguirem para Frutecel. Estava curiosa para conhecer seu novo proprietário, ainda mais depois do telefonema de Paulo.

– Bom dia, Maria! Dormi tão bem! Que estava sem coragem de me levantar. Sabe, adoro, esta casa! Ela é tão confortável! – Rita espreguiçou-se encostada na mesa.

– Trate de deixar a preguiça de lado, pois hoje teremos muito o que fazer. Vou precisar da sua ajuda. Estão faltando uns mantimentos na cozinha e tenho que fazer umas compras. Pode me ajudar?

– Desculpe-me, amiga, mas creio que não vou poder. Assim que sair da Frutecel hoje à tarde eu e Caio iremos passar o fim-de-semana em uma fazenda de um amigo seu em Caicó.

– Estou gostando de ver vocês dois juntos. Espero que esse casamento saia rápido. Vá em paz. Eu dou um jeito por aqui.

Depois do café, Maria subiu para o seu quarto e procurou uma roupa elegante e que combinasse com aquele dia quente. Vestiu uma calça jeans e uma blusa branca com botões na frente. Queria está bem vestida diante do novo proprietário da Frutecel. De repente, o telefone tocou. Correu até o criado mudo ao lado da cama e pegou o aparelho.

– Alô? Com quem deseja falar, por favor? – perguntou, apressada.

– Menininha! Sou eu, Pedro. Como está você? – perguntou o homem do outro lado da linha, docemente.

Maria surpreendeu-se ao reconhecer a voz. Suas pernas tremeram e para não cair sentou-se na cama. Ficou com a voz embaraçada, não sabia o que responder.

– Alô? Maria? Você está aí? Por favor, não desligue. Desculpe-me se lhe acordei. É que eu estava com saudades.

– Olá, Pedro! Desculpe–me. É que você me surpreendeu. Não esperava a sua ligação. Eu estou bem, e você não me acordou. Estou indo trabalhar.

– Tão cedo? Hoje é sábado. Por que não vai passear? Se eu pudesse estar aí não a deixaria trabalhar. Nós iríamos passar um fim-de-semana maravilhoso. Você aceitaria meu convite?

– Sim, aceitaria – disse baixinho – Sabe, sofro sem você há muito anos. Por que não marcamos um encontro para conversarmos sobre nós, nada mais nos impede de ficarmos juntos.

– Alguns poucos quilômetros nos separam apenas, menininha. Preciso desligar. Adeus.

Ele desligou o telefone tão rapidamente que Maria não pôde falar mais nada, só ouviu um tom de ocupado do outro lado da linha. Não entendera o que ele quis lhe dizer. Será que ligaria outra vez? Mas não podia ficar esperando, parecia atrasada.

Estavam todos reunidos na sala da presidência da Frutecel, menos o prefeito que saiu para pegar o novo proprietário da empresa que chegou de madrugada e estava hospedado no hotel da cidade. Caio conversava com Rita baixinho, enquanto Auxiliadora arrumava alguns papéis na sua pasta e Jânio que foi convidado também para aquele momento fumava um cigarro. Maria apenas pensava nas palavras de Pedro. Antes de concluir seus pensamentos, recebeu a resposta com a chegada do prefeito e de um homem alto, esguio, branco, olhos azuis. Os dois entraram na sala sorridentes. Maria estava cabisbaixa quando Rita tocou no seu braço anunciando a chegada do novo presidente da Frutecel. Ao levantar a cabeça Maria quase desmaiou da surpresa que teve. O novo presidente era Pedro. Custou a acreditar, mas era ele sim. Estava impecavelmente belo. Trazia um sorriso no rosto e um olhar doce a procurá-la pela sala.

– Esta é Maria, nossa diretora de recursos humanos. Esposa do seu amigo Paulo – o prefeito apresentou Maria para Pedro.

Pedro depois das apresentações formais, sentou-se à mesa e fitou todos. Falou dos seus projetos e do que pretendia fazer da Frutecel. Maria estava tão emocionada que não conseguia interpretar nada do que ele falava. Estava absorta em seus pensamentos. Seu corpo tremia como se estivesse fazendo um frio grande, seu coração saltitava tanto que incomodava. Por sua sorte Pedro foi rápido o bastante para livrá-la daquela situação vexatória.

– Sei que hoje é sábado e que vocês têm compromissos. Por hoje é só. Se alguém quiser entrar em contato comigo é só me procurar no hotel.

– Por que não almoça em nossa casa, senhor Pedro? – perguntou Auxiliadora.

– Obrigado. Mas tenho um compromisso. Fica para outra oportunidade – Pedro sorriu para a mulher.

– O que eles aprontaram com você, amiga? E agora o que vai fazer? – cochichou Rita no ouvido de Maria.

– Não sei. Tudo o que gostaria de fazer agora era dar-lhe um abraço forte – Maria brincava com o anel entre os seus dedos.

– É um homem muito bonito. Valeu a pena esperar vinte anos por ele. Não se preocupe com Auxiliadora, ele só está aqui por sua causa – falou Rita.

Dispensados, todos se levantaram e outra vez cumprimentaram-no saindo da sala logo depois. Maria sentiu a mão dele contra a sua num aperto forte. Pedro não lhe disse nada, apenas desejou–lhe um bom dia como desejou a todos os outros.

– E agora, o que vão fazer? Por que não liga para ele? Maria, esse homem fez algo espetacular para estar ao seu lado. Acho que ele merece uma chance.

– Calma, Rita. De repente, Pedro pode estar na cidade apenas para resolver os problemas de seu irmão que estar ocupado com a esposa. E ainda não posso me apresentar como uma mulher solteira diante do povo. Se ele veio mesmo por minha causa saberá a hora correta de me procurar. Irei esperá-lo.

Rita partiu para seu fim-de-semana com o namorado, Maria ficou sozinha em casa. Tomou um banho quente e vestiu seu robe azul. Jogou seu corpo sobre a aconchegante poltrona e ficou ouvindo música. Passava das nove horas da noite quando ouviu a campainha tocar.

Caminhou à porta e abriu-a vagarosamente. Era Pedro. E estava ali na sua casa.

– Desculpe-me por não ter ligado. É que eu queria lhe fazer uma surpresa.

Maria não falou palavra alguma. Tomou-o nos braços e o beijou deliciosamente. Seu corpo desejava muito os carinhos daquele homem, e já não suportava mais tê-lo ao seu lado sem poder tocá-lo. Sempre fingindo.

– Ei, espere um pouco. Eu vim lhe devolver este lenço – Pedro entregou-lhe um lenço branco. Era o lenço que Maria tinha lhe dado para enxugar suas lágrimas no aeroporto.

– Não vai precisar mais dele – disse ela – Entre. Quero que conheça a minha casa.

Pedro entrou e sentou-se na poltrona da sala de visitas. Conversaram sobre Paulo e sobre a ideia de Pedro comprar a Frutecel a ele.

– Sim. Paulo está envergonhado pelo que fez com você. Certa noite me chamou para conversarmos e me perguntou se ainda a amava. Eu disse que sim. Então me ofereceu a Frutecel e me pediu para procurá-la. Paulo disse que sabia o tempo todo que você ainda me amava. Estou disposto a amá-la como sempre sonhou, Maria. Também quero cuidar da Frutecel e ajudar esta cidade a crescer

– É bonito vê-lo falando assim. Você está muito empolgado com a empresa. Parecido comigo. Que bom achar um aliado!

– Seremos felizes, Maria. Lutarei por isso – Pedro a beijou na boca.

A lua tocou duas notas musicais ao entrar pela janela da sala de visitas. Estava nos braços do homem da sua vida novamente.