Quando as palavras nos calam

As minhas gavetas estão cheias de panos e de planos
Panos coloridos, planos ousados a quem dei vida
Vivi alguns momentos de enganos, fui enganada
Contemplei a beleza do meu céu
Porque o céu dos homens está cinzento
Acreditei que conquistas eram fáceis
Mas presenciei milhões de mestres
Para apenas uma cátedra, e um deveria ser o melhor
Quem escolhe o melhor? O que é o melhor?
Ganhar com o esforço coisas quase impossíveis
Senti o peso das latas d’água na cabeça
Com as lavadeiras aprendi a cantar
Lavei roupas de doutores e sonhei vesti-las
Eu buscava a realização dos meus planos
Corri, corri bastante, esqueci de parar na faixa de chegada
Ainda continuo correndo… mas a corrida já acabou
Tive que buscar-me diante de muitas portas
Quando alguém perguntou-me quem era
Olhei-me, não encontrei resposta senão meu nome
E uma pasta cheia de planos, sonhos, uma vida…
Mas eu pensava ser tanta coisa
Diante da covardia necessitei ser forte
Encontrei amigos que me apoiaram
Corriam em minhas finas veias os conselhos
Lavei meu destino com água, sabão e coragem
Coloquei-o para quarar como assim faziam as lavadeiras
Na esperança de limpar as minhas gavetas
Mostrando ao mundo os planos que falam de paz
Os sonhos que fazem da vida peça de cristal
Eu me chamo Maria, a lavadeira do meio-dia.

Danda Trajano.